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Herberto Helder
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Mergulhador na radiografia de brancura escarpada. Arboreamente explosiva. Busca na constelação salina a flor que traga na boca de bailarino. Uma bolha árdua, estelar, à tona do corpo e da onda. A morte confundida fora e dentro. Quando não há palavra que se diga e apenas uma imagem mostre em cima os trabalhos e os dias submarinios.
Herberto Helder
In: Última Ciência (p. 39). Peninsulares/Literatura 30. Assírio & Alvim, Lisboa
Imagem: Novic Arman Zhenikeyev |
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sonia regina - afinidades
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afinidades
dar conta do que nos cabe, em partilha,
a história do invisível no corpo, a intimidade
nos dedos, o vivo murmurando o sentimento
guerreiros não só escrevem o espetacular,
no cotidiano inserem a prosa do mundo
lendo, nos obstáculos, o caminho.
sonia regina
20.9.08
imagem: Alev Gunebakanli |
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sonia regina - cheiro e brilho
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cheiro e brilho
a terra molhada de chuva
cheira a futuro grande
nela eu moldo o destino
e meus cabelos brilham,
plenos
de profundas certezas.
sonia regina
17.9.08
imagem by tiffany araluce |
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sonia regina - momentos
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momentos
o frio invadia a colina. fugira
da casa pela chaminé.
na fumaça eu via, não a lareira
donde vinha, mas o fogão
a lenha, a refeição
[um cerimonial à mesa tosca]
uma família
momentos quentes e felizes.
sonia regina
17.9.08 |
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luisa barbara vaz - foggy road
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foggy road
a estrada branca, larga,
me elevava de mim
na conquista das nuvens
sem pressa, eu dominava os ares
luisa barbara
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luisa barbara vaz - na asa do rouxinol
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asa de rouxinol
na asa do rouxinol
a cada novo instante, outro início
no medo de planejar sem calma,
o receio de ultrapassar objetivos.
luisa barbara
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Antônio Ramos Rosa

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sonia regina - dos verdes que virão das sombras
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dos verdes que virão das sombras
se num simples toque musical
retornares a ti no teu passado
se deixares que se eternize o branco
na linguagem
conhecerás o guerreiro
não o que caminha para a queda
nenhum outro, senão tu
dirá dos verdes que virão das sombras.
sonia regina
16.9.08 |
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luisa bárbara vaz - exumação
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exumação
a fotografia exuma na tinta a energia
envelhecida, os sinais do tempo
não vingaram senão no esquecimento.
numa cremação no papel que não profana
– como quem raspa da pedra a inscrição -,
o retrato arranca da face o que não foi visto.
luisa barbara |
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Verônica Franco - Na ironia, um dom

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sonia regina - talvez mais penumbra
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talvez mais penumbra
recolher as aparas de um escrito adocicado
sem espremer as letras, para que delas saia
o sumo constrangedor das revelações
que anulam mistérios,
é uma teimosia.
não as deixes ficar, poeta-menina
nem procures na luz crua da escrita
senão a sombra que ela silencia,
casca e miolo do enigma dos sentidos
talvez precises de mais penumbra
ou de um inverno no Castelo de Duíno,
naquela falésia à beira do Adriático
sonia regina
14.9.08 |
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Luisa Bárbara Vaz - Sem Tropeços

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sonia regina - a poesia sobe a ladeira
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a poesia sobe a ladeira
sigo o brilho, adiante
pouco percebo os contrapontos
de alguns instrumentos
que se escondem do sol
longe do real
das renúncias, a sobrevida
apaga os vestígios,
da dor
nos instantes idos
subindo a ladeira
maravilho-me
com as letras que deixo cair
na poesia tornada carne
sangue
devaneio
verde contentamento
sonia regina
14.9.08
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sonia regina - as estações
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as estações
o sentido de possibilidade do ritual
descolou da história dos equinócios,
ultrapassar meridianos era suficiente
para manter o lume aceso
num prolongamento do vivo,
no permanente adiamento
de morte pouco indulgente;
com amabilidades de enigma,
ao mistério menos intrigante
restava a indigência do tempo.
da sombra intrínseca à luz
o obscuro emergiu.
Abrupto.
Destruidor.
as trevas domaram o verão
- não as ondas de suas águas -
e o dizimado floresceu no inverno,
numa construção sem raízes.
sonia regina
14.9.08
imagem: Dianne Owen |
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sonia regina - simplesmente
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simplesmente
não sou uma metáfora guerreira;
sou um elo de uma corrente,
nada mais que isso.
cultivo a ausência de gagueira
em certas ações
que contratam o vivo
sem louvores beatos nos tropeços,
sou
simplesmente.
sonia regina
13.9.08
imagem: Tudorica Alexandru |
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sonia regina - onde pulsa o sol
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onde pulsa o sol
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“Escrevo-te enquanto algo resvala, acaricia, foge e eu procuro tocar-te com as sílabas do repouso como se tocasse o vento ou só um pássaro ou uma folha.”
Ramos Rosa |
carinhosamente respondo-te de uma calmaria,
mas não sei do que resvale ou fuja
digo-te do afago em tuas sílabas do repouso,
ternura a me acolher a letra e a me receber,
folha ou pássaro
escreves em minha pele, já vento,
sopram os teu dedos no meu corpo,
em meus lábios desenhas o sentido
da felicidade
no movimento do fogo a paciência
do teu amor, em ondulação suave,
toca o fundo aberto da palavra
que cintila, branca,
onde pulsa o sol.
sonia regina
7.9.08 |
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Verônica Franco - A primeira flor
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A primeira flor

A tua palavra, a primeira flor, Regalados de nós, nossos olhos Em aves, voamos, orbitamos Na manhã, aceso o sustento.
Verônica Franco
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sonia regina - em minha nudez
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em minha nudez

depois de muita leitura
o branco se transforma,
se o tempo tiver tempo
ervas alegrarão o verde
mas o azul ficará encoberto,
quando não te vir comigo
nestas noites de lua crescente
enfeitarei os cabelos,
receberei o vento norte
em minha nudez
e honrarei teu nome.
sonia regina
6.9.08
imagem: alex krivtsov |
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sonia regina - não sem o beijo de amor na pálpebra
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não sem o beijo de amor na pálpebra

retornar ao azul, ao sal das águas é,
no assombro dos sentidos,
ver-se brotando na mata;
ver, na delicadeza do rio, avizinhar-se
- líquida e cristalina - a inteireza perdida
[não sem o beijo de amor na pálpebra];
ver que os pés, como as flores de lótus,
seguram-se no fundo;
ver a dor, a loucura, as sobras e as deficiências
enfim verterem por um edema que finda.
sonia regina
6.9.08 |
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Sonia Regina - Sabor
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Sabor
“Amar é importar-se”. O que me agrada nessa escrita é o seu sabor de dicionário, sem conotações.
Triste é a sina dos dicionários: só os lábios sabem o amargor ou a doçura do significado, no encontro de duas palavras que nunca andaram juntas.
Meu texto também busca essa simplicidade de chão comum, quer estar febril sem estilhaços de palavras, quer uma opacidade efêmera e a claridade em todas as suas formas; quer, em todas as estações, ser urbano;
Meu texto quer ver saltar uma poesia cotidiana, um momento captado em outro plano - mas tangente ao real;
Meu texto quer, sem princípio ou fim, ser um meio aberto, liberto, disponível ao segredo e ao mistério;
Como se, desperto à loucura e à sanidade, contatasse a humanidade dos deuses.
Sonia Regina
5.09.08 |
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sonia regina - como uma oração na carne
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como uma oração na carne
quero um verso com função
de fábula, que gere
e dê luz;
um dito que nasça do espanto,
da palavra atravessando
o sonho, realidade mágica
que me percorra, místico poema,
na prática do verbo
: como uma oração na carne.
sonia regina
5.9.08
imagem: pilar ilara
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sonia regina - precipitar-se na palavra
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precipitar-se na palavra

a vontade de mergulhar no outro:
metáfora do eu expulso, acolhido
no mim
[como uma coisa ser a outra,
só na metáfora]
o som chega antes da palavra,
é toque sem imagem;
nem sonho, nem equívoco,
na relação entre voz e sentido.
já precipitar-se na palavra é relação
entre os dedos, os olhos, os lábios
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