no fluir da metonímia: poemas e imagens

  

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no fluir da metonímia

poemas e imagens

além da linha d'água

 

 

 

 

 

                                                                  

        

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soreg - sem assombro

 

 

sem assombro

 

 

 

 

as flores ousam na cor entre as nuances

de verde e tingem meu desdobrar urbano.

 

aqui estive eu de volta batucando o amarelo,

balbuciando o azul,

martelando as horas no meu olhar.

 

Suguei da distância o que o tempo pode trazer,

munida do entusiasmo necessário

 

: temperado com canela e poucas certezas.

 

 

 

sonia regina

14.7.08



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Ruy Belo - Condição da terra

 

 

 

Condição da terra

Ruy Belo

 

 

 

 

A minha amada chega no ar dos pinhais
cingida de resina vária como o cedro
e a maresia. Levanta-se lábil
compromete solene o séquito da aurora
Ou vem sobre os rolos do mar
cheia de infância pequena de destino
Também a trazem às vezes aves como a pomba
que os mercadores ouviram
em países distantes. Tem brilhos
nos olhos de veado como se buscara
a grande fonte das águas
Que nome tem a minha amada?
Como chamá-la se nenhum
conceito a contempla ?
Em que palavra envolvê-la?
A minha amada não é da raça de estar
como o homem posta sobre a terra
Que pés lhe darão
este destino de serem mais ágeis do que nós os sonhos?
Ombro como o meu será lugar para ela?
Que anjo em mim a servirá?
Ai eu não sei como recebê-la
Eu sou da condição da terra
que tacteio de pé. Quase árvore
não me vestem convenientemente as estações
nem me comenta a sorte
o canto pontiagudo dos pássaros

Vem domesticamente minha amada
Receber-te-ei aquém dos olhos
com este humilde cabedal de dias

Mas basta que venhas quando eu diga
do alto de mim próprio sim à terra.

 

 

 

 

[In: Aquele Grande Rio Eufrates]

imagem: Kenvin Pinardy

 



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Anne Perrier - Poesia das cinco XIII

 

 
 

Poesia das cinco

XIII

 


Vê irmão marinheiro
Não é aqui
Que as nossas lágrimas cintilam
Tememos acaso as vagas
E a corrente azul sem fim
Nas nossas veias
É já o vento vem e dançaremos
Rápidos golfinhos
Nos séculos alagados

                                  

                                 Anne Perrier

 

 

In O Próximo Voo das Aves. Poetas em Mateus, Quetzal Editores. 2000

imagem: Kathy Breen

 



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soreg - no sudoeste

 

 
 

   no sudoeste

 

   sonia regina

   

 

 

 

 

I

 

o ar cálido traz grãos de areia do rio dos sonhos.

 

mas é fria a noite, para um coração solitário:

vulnerável através da beleza nos olhos,

não sabe viver numa tempestade luminosa.

 

 

II

 

o sal lava estigmas que ainda restam na areia.

no fundo da garganta a voz inquieta o tempo

e chama o vento, que comigo se enrosca.

 

quando minh’alma amortece o canto,

sonha embriagar-se das tuas delícias.

 

 

III

 

na praia amanhecem as casuarinas.

 

estou só com a memória do teu toque

e ardem no corpo filigranas de ternura.

 

 

 

 

 

imagem: Mauritius BellaMare



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soreg - poemas do sudoeste

 

 
 

imagem: calee allen

 

 

 

poemas do sudoeste

sonia regina 

 

 

 

 

I

 

olha a ocre presença da luz clara.

há um paraíso escrito

com traço estranho ao verbo;

 

sem nevoeiro,

 

as tempestades de orvalho retiram

da polpa do cacto o espinho.

 

 

II

 

a tua visita alegra aquele continente

deitado em lençóis de linho bordado,

entre rosas e opalas

 

latejam-lhe as têmporas,

gritam os sentidos por tuas mãos;

 

atrevidas e gulosas,

 

sabem buscar seus lugares mais secretos. 

 

 

III

 

num deserto coberto de sedas esperava

o tatear de tua língua

 

para saborear-lhe a tepidez, explorá-la

 

em cada monte

 

aquecer-lhe o sangue.

 



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soreg - poesia do sudoeste

 

 
 

imagem: Kathy Breen

 

 

 

poesia do sudoeste

sonia regina

 

 

I

 

inalo o brilho da lagoa e escuto

(inundada por uma preguiça obreira)

a harmonia dos pássaros no mar

 

corro devagar pela estrada que liga

teus dedos ao meu coração.

 

 

II

 

ouves o som dos meus desejos

ao toque das tuas palavras

de azeite e mel?

 

untam e perfumam o desalento

com fome de prazer.

 

 

III

 

nua, longa e sinuosa palmeira

- num bailado ávido de enlaces –

entrelaça-se ao vento.

 

 

IV

 

 a saudade não dorme. 

engana cada canto vazio,

segue o vento,

 

 

voa lânguida

 

e vagarosamente pousa

na mão do pescador certo.

 

 

V

 

sonhando a cura de todas as sinas

vivo na mão do mundo

 

suspensa do teto por uma força pagã.

 

 

 



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Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 



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Ilia Shalamaev

 



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LLansol

              

 

    

 

 

 

 

"Liga-nos a aquiescência de que almejar com a escrita não é o mesmo que esbanjar no vazio a palavra."

 

Maria Gabriela Llansol

 

 

 

 

In: Um falcão no punho, Lisboa, Rolim, 1985, p. 60.

imagem:  John  Hill



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Homenagem Póstuma a Antonio Domingos Aldrighi

 

 



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