no fluir da metonímia: poemas e imagens

  

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no fluir da metonímia

poemas e imagens

além da linha d'água

 

 

 

 

 

                                                                  

        

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soreg: descobria como nascia o suspiro - na face calada, não de um jogo

 

 

     
 

vestígios

  ao acordar percebo na
  luz frágil do quarto os sonhos
  esquecidos meus

  caminhos tropeçam o dia
  inteiro nos longes que me
  impus meu

  dormir jamais espanta
  o frio das ruas do meu
  corpo

  imenso coalhado dos resíduos das
  marcas das nódoas
  e da chuva perene

Adair Carvalhais Júnior

 
   

 

 

O rumor da paisagem

 

 

Percebe no escrito os movimentos do sonho e da realidade. Por vezes se depara com um ou outro conto antigo, em estado bruto - latentes as mudanças que virão a ser feitas, como se, autora, plagiasse a si mesma.

Ouve música e escreve no laptop, sobre o colo. A manhã chega, em paz, e a vontade é de que tudo dê certo. O que passa a limpo e a incomoda, joga pros personagens.

 

O mundo gira (lá fora), mas as cortinas cerradas mantêm o quarto - na penumbra - estático num sem tempo, valorizando o calor da memória que testemunha e ilumina o momento de soprar fronteiras.

 

Na escrita expõe marcas de sua vida e características de sua personalidade que preferia permanecessem anônimas. Continua, contudo.

 

Inventa um contentamento por ser sábado. A cultura e tanta novidade pra se consumir lá fora, as pessoas que colorem a vida quando estão junto...

 

Mas está só. Em meio a tantos, mas tantos caminhos e atalhos, que um simples domingo pleno de encontros felizes parece uma meta longínqua. Sente-se tropeçando na falta de praticidade, as palavras a envolvem numa confusão de idéias e planos que respingam das paredes.

 

Na sombra, entre o espanto e a luz, o seu olhar para si, à cata de um tempo demarcado, menos solto. Mais preciso, com imagens menos embaralhadas e mais próximas.

Nebulosas incertezas, afirmações e sua pertinência, hipóteses, conceitos, regras... A teoria, a crítica e sua observação nelas fundamentada em busca de argumentações que as clarificassem não mais a apóiam no mapeamento de seus caminhos, que se tornaram distantes até para fantasiá-los. Mas, a par da sensação de obscuridade, sua crença e fé de que vislumbrará, na sombra, parte da luz que a criou.

Na verdade, acordava de um sono gelado no qual por horas, minutos, dias, anos, ribombaram, em seu corpo - encharcado com os resíduos de um passado que lhe assombrava o futuro possível, desejado, adivinhado -, ecos de culpa, medo, inseguranças. Sim, havia vida a ser vivida, emoções a serem despertadas, nós a serem desatados, nódoas a serem clareadas, pontos a serem estimulados à exaustão – no hoje.

Os que não dormiam, naquele tempo nublado, estavam recolhidos. Foi dar uma volta pela rua deserta. Tomou um café na padaria, trocou duas palavras com o jornaleiro, inspirou fundo e retornou.

Abriu as cortinas e as janelas e retomou a escrita que, embora viesse a ser pública, tratava de assuntos pessoais e privados. Relata não só a impressão que teve dos lugares e os acontecimentos de suas viagens, mas episódios particulares. Todavia, a tendência a contar sua história a faz recortá-la e narrar com a intensidade encontrada no romance, deixando assim de configurar qualquer coisa próxima a uma autobiografia. Protegia-se. 

 

Ouve rádio e vai anotando trechos de músicas:

 

Tão longe de chegar

mais perto de algum lugar

O silêncio, uma catedral

                                *

Mas renova-se a esperança

Pra que a vida nos dê flor

e fruto

Há que se cuidar da vida

Há que se cuidar do mundo

Alegria e muito sonho

Declarados no caminho

Sentimento, folhas, coração,

juventude e mel

                *

It’s rainning again ...

                *

 

Nem percebera que a chuva interminável se fora. Que houvera um interstício. E aquele “chove novamente”, metafórico e musical, tomou-o como um bom presságio, um rumor da paisagem. Seguiu ouvindo. Cantando mentalmente... Escrevendo:

 

Há uma musa da boa escrita, a solidão não lhe toca o corpo: se o verso não cala o rumor dos gestos, há sempre poema.

Pois cuidarei para que não toque o meu. Não o quero um trilho abandonado numa paisagem sem rumores, esquecido como não quero que fiquem alguns sonhos que não serão derrotados.

 

 

 

Sonia Regina

Rio, 11.01.08

 

   
 

"O Rumor da Paisagem" - Texto vencedor do Desafio de Prosa 01/2008

http://amantedasleituras.blogspot.com/2008/03/sonia-regina-o-rumor-da-paisagem.html

 
     

 

 

 

 

 

descobria como nascia o suspiro

Pico do Caledônia: Nova Friburgo, Rio de Janeiro  - Imagem: www.gazetadascidades.com.br
 
 
 

 

 

Gostava de ver como os que trabalhavam a terra enxugavam com o dorso da mão a testa, olhando fixamente além. Um horizonte por vir, que não seria o mesmo para todos. Pensou se era nesses momentos que sonhavam. 

 

A tarde era oblíqua; constatara quando vira que, ao longe, no fundo do vale, já anoitecera e ali ainda havia sol. Bom sentir-se sua amiga.

 

Ainda desconhecia a indiferença. Quase tudo que a atingia, recebia com afeto e com espanto: desgostos e gostos em partes quase iguais. Quase, porque nem sabia quantos desgostos lhe tirariam o poder maravilhar-se por nunca ter visto um pôr-do-sol igual a outro: um gosto e tanto, imenso, beirando a eternidade!

 

Sabia desde muito cedo que em cada pessoa forte havia alguma inocência, um desconhecimento do que fosse mal, ou bem. Não que fossem puros, os homens das montanhas. Ou ingênuos. Mas o contato com a terra, o respeito pela ventania, chuvas e raios, o desejo do sol do amanhecer nas noites extremamente frias lhes ensinara a viver sem auto-indulgência. Expulsos dos reflexos do ego, podiam viver os dias realmente próprios sem o sentimento de propriedade. Sem arrependimentos ou culpas seguiam com suavidade as mutações da natureza e integravam-se ao curso do mundo.

 

Ela mesma... Quantas vezes seu coração se apertara, quantas vezes voara dentro do peito. Por vezes seus deslumbramentos lhe traziam alguma desordem, por vezes uma quietude como esta, agora, em que descobria como nascia o suspiro.

 

 

sonia regina

28.2.08

 

 

 

 



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soreg - sorrio

 

 

     
   
 

 

sorrio

 

pro silêncio do sol que independe de mim

e pras tuas letras que me fazem ouvir música

[e ao mesmo tempo os ruídos]

 

: uma façanha?

 

talvez, desse verão sem calor.

 

 

sonia regina

25.2.08

 
     
  imagem: sidnei pedro souto maior  
     

 

 



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soreg - em tempo de ressaca

 

 

     
   
 

 

em tempo de ressaca

 

 

 

queria compor um samba, um rock,

quem sabe um reggae

à la jamaica

me fizesse pintar de vermelho o muro

[ou toda a casa],

voar nua sobre os lençóis revoltos,

sob teu corpo

queria ser água; bastava ser água

 

salgada, bem salgada,

em tempo de ressaca.

 

sonia regina

25.2.08

 
 

 

 

 
 

imagem: O Globo - ressaca na praia do Leblon, Rio

 
     

 

 



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soreg - o sabor da pitanga madura

 

 

     
   
 

 

o sabor da pitanga madura

esgarça a contrição caseira.

escapulo pelas frestas

a tempo

 

de entregar meus cabelos

ao sereno, tão profunda

e inteiramente

 

eu,

 

aqui, nesse momento

também me lembro

 

de ti.

 

 

 

sonia regina
25.2.08

 
     

 

 



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soreg - tocado, o afago caminha

 

 

 

tocado, o afago caminha

 

 

a ternura se distrai no desenho de um concreto

público menos congestionado e a comoção

vem da areia em busca de diversão

 

no beco sem saída. a história não se restaura

[revitaliza-se]

em cada prédio tocado.

 

o afago caminha do olhar aos dedos,

o afeto pula da memória ao tato

 

: momentos felizes.

 

 

sonia regina

24.02.08

 

 



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soreg - entre as pitangueiras

 

 

 

 



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Matsuo Bashô

 

 

                                             

 

 



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Fernando Pessoa - Vendaval (fragmento)

 

 

 

 

Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.

Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!

 

 

Fernando Pessoa, Vendaval (fragmento)

 

 

 

 

 

 



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soreg - sem trevas, nem luz nem sombra

 

 

sem trevas, nem luz nem sombra

 

 

 

 

 

na escuridão sem trevas,

nem luz nem sombra:

espaços

 

na poeira no ar, na distância

entre o que sinto

e escrevo.

 

no que não se vê, afetos,

e às vezes um raio de sol.

 

 

 

sonia regina

09.02.08

 

 

 

 

 

Imagem: Sascha Huttenhain

 

 

 

 



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soreg - palavras são vestes

 

 

 

 

 imagem:Bob Archer

 



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soreg - a fome de se espantar

 

   
 

 

 

a fome de se espantar

 

 

 
 

 

essa poesia que sopra às 8h

e divaga, com o navegar;

da palmeira se esparrama,

pinta de azul nuvens brancas

e se atira ao teu beijo,

à beira-mar;

 

inventa um cheiro pras dálias,

amadurece nas pitangas,

nas mangas é a fome

 

de se espantar.

 

 
     
 

sonia regina

06.02.08

 
     


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soreg - Uma beira de alegria

 

 

Uma beira de alegria
 

 

 

Somos um poema em construção sem limites a não ser na quebra da seqüência, se o que nos domina é o ritmo.

Nele e na imagem está o poder das palavras disponíveis e felizes: terras sem fronteiras, têm em algum ponto uma beira, como a areia e o mar.

É numa quietude geradora que, de um momento secreto e íntimo com o fogo dos deuses, forjamos as letras, maravilhados.

E é do espanto que a alegria flui, beirando os versos. 

 

sonia regina

04.02.08

 

 

 



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soreg - na goiabeira do quintal

 

 

"Na verdade, aprofundar a intensidade de viver e deixá-la à natureza, é morrer menos."


                                                                                                       Maria Gabriela Llansol

                                                                                                                       In: Parasceve

 

                     

 

 



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carnaval 2008 - A poesia no samba de enredo

CARNAVAL RIO/2008 - A POESIA NO SAMBA DE ENREDO

 

BEIJA-FLOR BI-CAMPEÃ

 

 

 

O meu valor me faz brilhar
Iluminar o meu estado de amor
Comunidade impõe respeito
Bate no peito eu sou Beija-Flor


 

 

 

 

É manhã
Brilho de fogo sob o sol do novo dia
Meu talismã, a minha fonte de energia
Oh deusa do meu samba, a flor de Macapá
No manto azul da fantasia
Me faz mais forte, extremo Norte
A luz solar, ilumina meu interior
Vou viajar na Linha do Equador
Emana ao meio do mundo a beleza
A força da Mãe Natureza, é Macapaba
O rio beijando o mar, encontro das águas


 

Marejando meu olhar


 

Quem foi meu Deus que fez do barro poema
Quem fez meu Criador se orgulhar
Os Cunanis, Aristés, Maracás,
Foram dez, foram mais, pelo Amapá


 

Um dia, navegando em rios de Tupã


 

A viagem fantasia, dos filhos de Canaã
A mágica da terra, a cobiça atraiu
Ibéria se enleva no Brasil
A mão de Ianejar


 

Na fortaleza pela proteção da vida
Em São José de Macapá
Brilha Mairi a minha estrela preferida
Herança moura em Mazagão
Retiro meu chapéu de bamba e assim
O marabaixo ao marco zero cai no samba
Soam tambores no tocar do tamborim


 

O meu valor me faz brilhar
Iluminar o meu estado de amor
Comunidade impõe respeito
Bate no peito eu sou Beija-Flor



by SR
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