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soreg - no ritmo nas asas
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no ritmo nas asas
ontem as aves não cantaram
mas a melodia em busca de som
aproveitou a batida das asas
e houve ritmo; na madrugada da lagoa
confiei nas cores das folhas, ao amanhecer,
fiz para ti esse colar de orvalho e verdes
toma-o, anjo da madrugada, e me convida
a dançar no azul o movimento dos peixes.
sonia regina
30.1.08 |
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by SR
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soreg - leve e de todos, a ausência
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leve e de todos, a ausência
o vento se agachou atrás do morno da brisa
e as divindades regressaram ao olimpo,
diáfanas, tão leves e de todos
na ausência com gosto de sombra e luz,
nenhum lamento.
sonia regina
30.1.08 |
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imagem: Janusz Taras |
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by SR
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soreg - hiatos e instantes de areia
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hiatos e instantes de areia
a luz do dia se desmancha nessa chuva
que cai em hiatos e evita instantes de areia
é tão pueril a franqueza das ondas
a reclamar o atraso do sol,
dá vontade de afagá-las
mas não me atrevo,
não faço parte desse momento solene:
o mar cresce para experimentar
as nuances do verde.
sonia regina
30.1.08 |
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Imagem: Zeca (Rio) |
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by SR
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soreg - um escrito vagabundo
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um escrito
vagabundo
a Ana C.
Olho muito tempo o corpo de um poema até perder de vista o que não
seja corpo e sentir separado dentre os dentes um filete de sangue nas
gengivas
Ana Cristina César (Ana C.)
olha,
poeta, que isto não é um poema.
é um
escrito vagabundo.
me
angustia ler tuas biografias inúmeras.
em
nenhum retrato a face que conheci,
o olhar
vivaz e zombeteiro, o cabelo louro curtinho.
e os
óculos? não têm esses registros...
pesa, a
minha memória engasgada
e choro.
quente. como sangue venoso, choro grosso.
são as
lembranças fazendo circunvoluções, não eu.
não
brinco mais de usar tranças, e evito dar voltas.
era possível rodar, nada
escondido.
nada por
esconder?
nada
assustava ou era difícil, senão tentar entender Godard.
até a
guerra dos cem dias se clareou naquela noite,
na
palestra na Maison - e não foi o branco da tua homeopatia.
talvez
os dezesseis anos fossem claros. protegidos a descoberto.
Clarice
Lispector foi uma descoberta que pouco descobriu.
desvelar
é como a lucidez dela: perigosa.
olhar
além de ver arranha a alma,
estar em
carne viva não é pra jovem (de pele fina, sem calos)
e às vezes é difícil suportar - foi o
que disse Torquato, na
carta que deixou.
sonia
regina
28.01.08
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soreg - o pulsar que segreda sem nevoeiro
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o pulsar que segreda sem
nevoeiro
o orvalho retira o
espinho da polpa do cacto
e cada canto vazio
segue o vento, num vôo
que honra o canto da
noite nas pitangueiras
com o pulsar que
segreda sem nevoeiro
o passado ao
repetir-se diferente, revela
os montes tocando o
sol; enlaces
num tempo de
milagres.
sonia
regina
27.01.08
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Uma
referência à tese do Eterno Retorno - o sentido da vida. Não há a linearidade
futuro-passado, há um movimento de repetição e diferença. O mesmo sempre retorna
próximo ao ponto de origem e dele se afasta, diferente. Ou, como diz mais
objetivamente Silviano Santiago nessa menção a Deleuze: “como me disse Gilles, o
eterno retorno não é a repetição do mesmo, mas o mesmo em
diferença”. |
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soreg - à porta entreaberta das graças range o dia
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à porta entreaberta das graças range o dia
a mão do velho pastor pressente divina,
a tempestade de areia luminosa.
gira o deserto,
à porta entreaberta das graças range o dia;
devaneia, o coração que acorda solitário
sem que nenhuma nudez baile em seus sonhos.
sonia regina
27.01.08
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soreg - da hora do afeto
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da hora do afeto
talvez o lastro que lhe foi suporte para a expansão
chegue à alegria agora, talvez a ternura invada
e, lhe falando da hora do afeto ao ar livre,
recomponham a passagem para os sorrisos e luares.
sonia regina 25.01.2008 |
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soreg - vivem da palavra ao poema
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vivem da palavra ao poema
os que suportaram o conhecimento
do novo na letra inteira, Vivem
a poesia
e, da palavra, saltam ao poema.
sonia regina 25.01.08 |
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Imagem: Turner |
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soreg - os poemas não se penduram nas páginas

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soreg - como a pele, às águas
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como a pele, às águas
a folha não abre os poros
(como a pele, às águas)
senão às tintas
nela percorrem idiomas.
sonia regina
25.01.08
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soreg - um olhar enviesado pode ser doce

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soreg - Maria

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soreg - a última lágrima ilumina do avesso

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Clarice Lispector

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soreg - com cheiro de flores, o desalento
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com cheiro de flores, o desalento
no porto de pesca o sol lutava
titanicamente com as nuvens
e no bar dos pescadores, vazio,
amaram-se as nossas palavras.
untaram e perfumaram com cheiro
de flores o desalento, dando-lhe força.
amar-te-á a terra das palmas na areia;
amar-me-á a terra dos três elixires;
amam-se esses nossos sentimentos
que não dormem e enganam o vazio
de onde eu sairei para te buscar,
na tua rocha. Iremos pro mar,
talvez, para cavalgar algum cavalo marinho;
ou, ao sabor das ondas, ver as brincadeiras
das sereias e dos golfinhos;
quem sabe pastorear um luar,
saudar o vento, sorrir
para o tempo que passa
sempre com pressa
de algum lugar.
sonia regina
23.01.08 |
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soreg - um arrepio e o espanto
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um arrepio e o espanto
de repente, no meio da estrada
uma vertente molhada
nenhum verde
sem imagem, sonho
ou equívoco,
um arrepio e o espanto
antecipam a tepidez da cascata,
os sentidos
sonia regina
23.01.08 |
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soreg - palavras como cor
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palavras como cor
nunca é o mesmo som
que chega antes da palavra
criada, ao lugar impossível
da morfologia e sintaxe certas
embora haja palavras, como cor,
que não dependem de gosto
para ter sabor
sonia regina
23.01.08 |
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Imagem: Turner, Colour Beginning |
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soreg - o corpo histórico

Colaboração
para Entrecampos, "O Lugar no Corpo" ,poema coletivo do grupo Escritas
epigrafe:
“Além de estar no lugar/ o corpo é um lugar" – Roland Barthes
by SR
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soreg - sotaque brasileiro
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sotaque
brasileiro
ouve o
balanço
o sabor
brasileiro
do manto de acácias
o jogo
de cores das
dálias
das estrelas
da luz clara
sopram, ah, sopram felizes
a flauta e o cavaquinho
ah, esse chorinho
que me rouba
à contemplação das vagas
e me leva a dançar
num paraíso
escrito
sem traços
perdidos.
sei que cantei
com sotaque brasileiro
mas agora
só respiro entontecida
na roda de tuas palavras
sou improviso
ah, querido,
se me desafias
a bailar,
me elevas nas
ondas
e sou
sim, sou
contigo
somos
(sem flautas ou
cavaquinhos
na roda das tuas palavras
nem canto nem
improviso)
um balançado
chorinho.
21.01.08
sonia regina
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imagem: Cândido
Portinari |
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soreg - a pedra no mar
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a pedra no mar
no mar, a pedra do rio
é obra nova, nem sempre acesa,
de tão especialmente marinha.
sonia regina
21.01.08 |
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soreg - enroscada

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pororoca
o encontro do rio com o mar
é, ao sol, natureza que ferve,
quando se entrega à maré.
21.01.08
sonia regina |
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raízes deixam o poema sem essência
sobre uma superfície nua nenhum animal
se achará abrigado
a poesia escrita, entretanto, é meu refúgio
despida de certas palavras,
que se atrelam ao idioma por hábito.
enrolam-se nos versos, como trepadeiras
sorvem a poesia para suas raízes
deixam o poema sem essência.
sonia regina
18.1.08
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Imagem: Justin Black Photos |
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soreg - visita a floresta da tijuca
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visita a floresta da tijuca
na terra coberta de folhas, tua visita
alegra o parque, deitado em orquídeas
latejam-lhe as têmporas,
gritam os sentidos
por tuas mãos atrevidas
e gulosas,
que sabem buscar seus lugares
mais secretos.
longa espera pelo tatear da tua língua
a saborear-lhe a tepidez, a explorá-lo
em cada monte
aquecendo-lhe o sangue.
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sonia regina
18.01.08 |
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Imagem:
pintura de Pedro Luiz Correia de Araújo |
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soreg - estranha, a pele

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