no fluir da metonímia: poemas e imagens

  

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no fluir da metonímia

poemas e imagens

além da linha d'água

 

 

 

 

 

                                                                  

        

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sopre as cinzas - silvia schmidt

 

 

QUE VENHA 2008! DO ANO VELHO,

 

SOPRE AS CINZAS
(
só por sacanagem)

® Silvia Schmidt

 

 

Quem feriu você já feriu e já passou.
Lá na frente encontrará o inevitável retorno
e pelas mãos de outrem será ferido também.
A Vida se encarregará de dar-lhe o troco
e você, talvez, nem jamais fique sabendo.

O que importa de verdade é o que você sentiu
e, mais importante, é o que ainda você sente:

Mágoa? Rancor? Ressentimento? Ódio?

Você consegue perceber que esses sentimentos
foram escolhidos por você?
Somos nós que escolhemos o que sentir
diante de agressões e de ofensas.

Quem nos faz o " mal " é responsável pelo que faz,
mas NÓS somos responsáveis pelo que sentimos.
Essa responsabilidade tem a ver com o Amor que
devemos e temos que sentir por nós mesmos.

O ofensor fez o que fez e o momento passou,
mas o que ficou aí dentro de você?

Mágoa?
- Você sabia que de todas as drogas ela é a mais cancerígena?
Pela sua própria saúde, jogue-a fora.

Rancor?
- Ele é como um alimento preparado com veneno irreconhecível:
dia mais, dia menos, você poderá contrair doenças
de cujas origens nem suspeitará.

Ressentimento?
- Pois imagine-se vivendo dentro de um ambiente
constantemente poluído, enfumaçado, repleto de
bactérias e de incontáveis tipos de vírus:
é isso que seu coração e
seus pulmões estão tentando aguentar.
Até quando você acha que eles vão resistir?

Ódio?
- Seus efeitos são paralisantes.
Seu sistema imunológico entrará em conflito com esse
veneno que com o tempo poderá colocar você
face a face com a morte e talvez muito tarde
você venha a perceber que melhor seria ter deixado
que seu agressor colhesse os frutos do próprio plantio.

Por seu próprio Bem e só pelo seu Bem, perdoe.

O perdão o libertará e o fará livre para ser feliz.
Esqueça o " mal " que lhe foi feito.
Deixe que seu ofensor lembre-se dele através das
consequências com que, certamente, virá a arcar.

Mude seu destino ... seja o comandante da sua nau!
Escolha o melhor caminho para sua " viagem ".

... e se outras vezes o ferirem, perdoe ...
Perdoe ... nem que seja só por sacanagem !

 

 

" O perdão é a única vingança aprovada pelo Universo " Silvia Schmidt

 
 
 
® SILVIA SCHMIDT
*Humancat* -
http://www.humancats.com/

No livro " Sorte É Prá Quem Quer " ©2002
 
 



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José Gomes Ferreira

 

  Os Matizes de José Gomes Ferreira

 

 

 

 

 

 

 



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sebastião salgado - herberto helder

 

 

 

 

 

 

 

 



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 ...

 

   

Não só a natureza segue colorida e brilhante independente de nós. As palavras seguem soltas, sem vínculos ou alianças  e dizem do mesmo modo de sentimentos e momentos diferentes. Tudo é impermanente, a mudança é constante, os ciclos de vida se sucedem como as estações. É evoluindo em espiral pelo infinito (como a Via Láctea) que vamos, sem jamais voltarmos ao mesmo ponto.

Uma responsabilidade fazer esse caminho cientes que nem a palavra nem a poesia ou a natureza estão aí para darem conta do que é estrita, íntima e profundamente nosso. Tampouco basta dar e/ou receber amor, esse que, como disse Clarice Lispector, nunca há de nos falhar.  Há que se arriscar, aceitar os desafios e tomá-los como convites. Irrecusáveis. 

O amor deve ser leve e livre para que a vida seja doce, liberta de prisão ou exílio. Um morrer a cada dia e um renascer, vitoriosos, no amor. Esse, o Natal: real e metafórico.       

 

sonia regina 

 
     

In: Esse, o Natal: real e metafórico (fragmento)

 

iimagem: Set Focus



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sonia regina [soreg] - 2007

sonia regina [soreg] - 2007

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

 

 

 

 

   

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

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Maria do Rosário Pedreira

 

 Maria do Rosário Pedreira

 

 

 

 

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor -

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

agora e sossega a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

 

                               Maria do Rosário Pedreira

 

Imagem:  La Ciesta Cotidiana-Van Gogh

 

 

 

 

 

 

 

 
                                        

 

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.

 

 

                                Maria do Rosário Pedreira

 

 

 

 

 

 

 

 

Diz-me o teu nome - agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim.

 

 Maria do Rosário Pedreira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram

Para o sul à sua procura, deixando um lugar vago

à mesa, um bilhete entalado na porta, as plantas,

o canário, um beijo e um livro emprestado: a memória

das suas biografias incompletas. Os amigos

 

desaparecem em agosto. Consomem-nos as labaredas do sol

e os amantes que chegam ao fim da tarde

jantam e de manhã ajudam a regar as raízes das avencas

que os amigos confiaram até setembro, quando regressam

 

trazem saudades e um romance novo debaixo da língua.

Levam um beijo, os vasos, as gaiolas e os amantes

deixam um lugar vago na memória, cabelos na almofada,

uma carta, desculpas, e um livro de cabeceira que os

amigos lêem, pacientes, ocupando o seu lugar à mesa.

 

                                                                                      

 

Maria do Rosário Pedreira

In: A Casa e o Cheiro dos Livros, pg. 19

Imagem: Crina-Paula P.

 

 

 

 

“Eu volto

 

à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo

os livros, escondo as cartas, viro os retratos

para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,

sei que não voltas, e ouço dizer que as aves

partem sempre assim, subitamente.”

 

                             Maria do Rosário Pedreira

 

             In: A Casa e o Cheiro dos Livros, pg. 69)

 

 

 

“Volto à casa e demoro-me nos quartos frios do silêncio.

Esconderam os retratos dentro dos livros. E os livros

nas gavetas. E fizeram as camas para sempre de lavado”

   

                                                 Maria do Rosário Pedreira

 

In: A Casa e o Cheiro dos Livros, pg. 72

 

 

 

 

 

Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.

 

 

 Maria do Rosário Pedreira



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Maria Gabriela Llansol

 

"Na verdade, aprofundar a intensidade de viver e deixá-la à natureza, é morrer menos."


                                                                                                       Maria Gabriela Llansol

                                                                                                                       In: Parasceve

 

 
 

“Tal como sou acompanhada pelos lagos - águas adormecidas naturais e duráveis -, de igual modo deve fazer parte da sombra, que se desloca comigo, inscrever os dias estendidos por longo período de tempo.”

 

 

Maria Gabriela Llansol

In: Um falcão no punho, Lisboa, Rolim, 1985, p.7.

 

 

 

 

"O meu texto não avança por desenvolvimentos temáticos, nem por enredo, mas segue o fio que liga as diferentes cenas fulgor. Há assim unidade, mesmo se aparentemente não há lógica, porque eu não sei antecipadamente o que cada cena fulgor contém.  O seu núcleo pode ser uma imagem ou um pensamento, ou um sentimento intensamente afectivo, um diálogo." 

   

Maria Gabriela Llansol

In: Um falcão no punho, Lisboa, Rolim, 1985

 

 

 

 

 

 

 

 “Parto escrevendo através da língua portuguesa, tendo deixado por consciência o sol e a água sempre latentes no terreno de Herbais: aqui imaginei, sob a forma de Pessoa, um único rio cósmico que não se quebra em fronteiras e vi-o, sem perplexidade, advir ao real; por essa ocasião, lembro-me de ter sentido o desejo de que não haja países que sejam como guardas de matilhas.”

 

 

 

Maria Gabriela Llansol

In: Um falcão no punho, Lisboa, Rolim, 1985, p. 120.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Abel sentou-se no chão. Via Sara de perfil, debruçada sobre o alguidar em que a brancura dos pratos purificava a água suja.
- Sara, tudo o que existe faz aumentar a luz.
- Como?
- Metes as mãos na água ela sobe no alguidar. Metes nesta casa uma cama, um armário e a luz também tem de aumentar. Tem de ir para algum sítio a luz que já não está no lugar da cama e do armário.
- Mas não é assim.
- Não. Pensei isto de manhã, enquanto guiava a camioneta.
Sara sentou-se também no chão, em frente de Abel. Os seus pés não tinham meias, nem sapatos.
As palavras "Sara, tudo o que existe faz aumentar a luz", " Metes nesta casa uma cama, um armário e a luz também tem de aumentar", eram o vidro que desunia os corpos de Sara e Abel.


                                                                                                                     

 

Maria Gabriela Llansol

                             excerto de O Chão das Três Árvores. In: Os Pregos na Erva. Edições Rolim, 1987



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soreg - Ex Mare Tranquillitatis e Não-ser ilha

 

Não-ser ilha
 



Dispo-me, poema de versos olhados,
aparentemente vitalizados do que observo

Se me perdi na maneira sutil de me falarem das flores
não me encontrei nas entranhas das pedras, rios, mares
nas fronteiras que apaguei, nos litorais que construí
nos meridianos que, iludido, simplesmente pulei

Não se atravessa paralelos trocando de lugar

As mesmas palavras em outra posição são as mesmas
palavras num estado de imitação, mimesis aristotélica

Do estado de espírito desnudo-me até o real não-ser ilha

Poema urbano em busca do ventre gerador
"demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto" (1)



Sonia Regina
10.12



(1) Ana Cristina César, in Psicografia

 

 

 

Ex Mare Tranquillitatis *

Sonia Regina

 

 

Não se mantivera aceso entre as pitangueiras durante a agonia das trevas e como um farol rompera a escuridão por causa de prestígio. Por causa de nada. Por causa de tudo. Simplesmente assim era. Iluminava palavras perdidas durante a noite e não conhecia o despertar do dia que através dos baixos galhos erguia-se no tempo, apoiado no pio dos pássaros de bicos reluzentes.

Era verão e o ar morno da Bahia cheirava a fruta madura, nessa noite em que prestou atenção aos vestígios do mar, quando atravessava o areal. Ouvia-se o marulhar das ondas.

Viu quando, por um fiapo de nuvem, desceu o anjo da madrugada. E do Mar da Tranqüilidade avistou o Porto Seguro que o acolheria, luar.

 


* Ex Mare Tranquillitatis – do Mar da Tranqüilidade

 

 “O Mare Tranquillitatis ou Mar da Tranqüilidade é uma região lunar, feita de lava basáltica solidificada, localizada na face brilhante da Lua” Wikipedia



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Ana Cristina Cesar

 

Ana Cristina Cesar

 

olho muito tempo o corpo de um poema

 

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas

 

                                              Ana Cristina Cesar 

 

tu queres sono: despede-te dos ruídos

 

 

 

tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.

 

                                         Ana Cristina Cesar 

 

 

um beijo

 


que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor

 

                           Ana Cristina Cesar 

 

Anônimo



Sou linda; quando no cinema você roça
o ombro em mim aquece, escorre, já não sei mais
quem desejo, que me assa viva, comendo
coalhada ou atenta ao buço deles, que ternura
inspira aquele gordo aqui, aquele outro ali, no
cinema é escuro e a tela não importa, só o lado,
o quente lateral, o mínimo pavio. A portadora deste
sabe onde me encontro até de olhos fechados;
falo pouco; encontre; esquina de Concentração com Difusão,
lado esquerdo de quem vem, jornal na mão, discreta.

 

                                                                       Ana Cristina Cesar 

 

Casablanca


Te acalma, minha loucura!
Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!
Este som de serra de afiar facas
não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardías...
Estas molas a gemer no quarto ao lado
Roberto Carlos a gemer nas curvas da Bahia
O cheiro inebriante dos cabelos na fila em frente no cinema...
As chaminés espumam pros meus olhos
As hélices do adeus despertam pros meus olhos
Os tamancos e os sinos me acordam depressa na
madrugada feita de binóculos de gávea
e chuveirinhos de bidê que escuto rígida nos lençóis de pano


 

                                                                         Ana Cristina Cesar 

 

 

Protuberância


Este sorriso que muitos chamam de boca
É antes um chafariz, uma coisa louca
Sou amativa antes de tudo
Embora o mundo me condene
Devo falar em nariz (as pontas rimam por dentro)
Se nos determos amanhã
Pelo menos não haverá necessidades frugais nos espreitando
Quem me emprestar seu peito na madrugada
E me consolar, talvez tal vez me ensine um assobio
Não sei se me querem, escondo-me sem impasses
E repitamos a amadora sou
Armadora decerto atrás das portas
Não abro para ninguém, e se a pena é lépida, nada me detém
É sem dúvida inútil o chuvisco de meus olhos
O círculo se abre em circunferências concêntricas que se
Fecham sobre si mesmas
No ano 2001 terei (2001-1952=) 49 anos e serei uma rainha
Rainha de quem, quê, não importa
E se eu morrer antes disso
Não verei a lua mais de perto
Talvez me irrite pisar no impisável
E a morte deve ser muito mais gostosa
Recheada com marchemélou
Uma lâmpada queimada me contempla
Eu dentro do templo chuto o tempo
Um palavra me delineia
VORAZ
E em breve a sombra se dilui,
Se perde o anjo.


 

                                                                         Ana Cristina Cesar 

  

 

Noite Carioca

 

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio.
Atravanco na contramão. Suspiros no 
contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta
do mundo: essa que não tem nenhum segredo.
 

 

                                              Ana Cristina Cesar 

 

Encontro de Assombrar na Catedral

 

Frente a frente, derramando enfim todas as
palavras, dizemos, com os olhos, do silêncio que
não é mudez.
E não toma medo desta alta compadecida
passional, desta crueldade intensa que te
toma as duas mãos.

 

                                              Ana Cristina Cesar 

 

 

Este Livro

 

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do
coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
total., tilintar de verdade que você seduz,
charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.

 

                                               Ana Cristina Cesar 

 

 

 

é muito claro
amor
bateu
para ficar
nesta varanda descoberta
a anoitecer sobre a cidade
em construção
sobre a pequena constrição
no teu peito
angústia de felicidade
luzes de automóveis
riscando o tempo 
canteiros de obras
em repouso
recuo súbito da trama

 

              Ana Cristina Cesar 

 


Quando entre nós só havia
uma carta certa
a correspondência
completa
o trem os trilhos
a janela aberta
uma certa paisagem
sem pedras ou
sobressaltos
meu salto alto
em equilíbrio
o copo d’água 
a espera do café

 

                            Ana Cristina Cesar 

 

 

Aventura na Casa Atarracada

 

Movido contraditoriamente
por desejo e ironia
não disse mas soltou,
numa noite fria,
aparentemente desalmado;
- Te pego lá na esquina,
na palpitação da jugular,
com soro de verdade e meia,
bem na veia, e cimento armado
para o primeiro a andar.

Ao que ela teria contestado, não,
desconversado, na beira do andaime
ainda a descoberto: - Eu também,
preciso de alguém que só me ame.
Pura preguiça, não se movia nem um passo.
Bem se sabe que ali ela não presta.
E ficaram assim, por mais de hora, 
a tomar chá, quase na borda,
olhos nos olhos, e quase testa a testa.


 

                                             Ana Cristina Cesar 

 

 

 

O Homem Público N. 1 (Antologia)

 

Tarde aprendi
bom mesmo 
é dar a alma como lavada.
Não há razão 
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita 
que vai sendo cortada
deixando uma sombra 
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.

 

                     Ana Cristina Cesar 

 

Nada, Esta Espuma

 

Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco 
quero tanto os seios da sereia.

 

                                    Ana Cristina Cesar 

 

OBS. os oito poemas finais foram selecionados por  Manoel Ricardo de Lima para o Jornal de Poesia



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D. H. Lawrence

           

D. H. Lawrence

   

   
Uma  revolução sadia

 

 

Se você fizer uma revolução, faça curtindo,

Não me venha com uma cara zangada

de seriedade mortífera,

faça uma revolução engraçada.

Não a faça por odiar as pessoas

e, sim, só para abrir os seus olhos.

Não faça uma revolução por dinheiro,

faça-a por fazer e que o dinheiro se dane.

Que a revolução não seja pela igualdade,

mesmo porque iguais nós já ficamos demais:

gozado agora seria ter o caldo entornado

e ver que rumo as coisas tomam rolando.

Não faça uma revolução pela classe

dos trabalhadores, mas sim para que cada um de nós

possa ser uma aristocracia em si mesmo

pulando com euforia, como os burros que escapam.

Sobretudo não faça uma revolução em defesa

do serviço do qual nós já tivemos bastante.

Vamos abolir o serviço, a ocupação compulsória!

O trabalho pode ser divertido, curtido pelos homens, e assim não ser

mais serviço.

Vamos fazer assim! Vamos fazer uma revolução por prazer!

 

                                            

                                               [tradução: Leonardo Fróes - Ed. Allambra]

 

 

 

 

 

 

 

O mosquito sabe

 

 

O mosquito, pequeno como é, sabe

muito bem que é de rapina.

Mas afinal

ele só tira o que lhe enche a barriga,

não bota o nosso sangue no banco.

 

 

                [tradução: Leonardo Fróes - Ed. Allambra]

                

 

 

 

Relatividade

 

Gosto das teorias da relatividade e dos quanta
porque não as compreendo
e elas me fazem sentir como se o espaço mudasse
de lugar como um cisne que não pode
acomodar-se, estar imóvel, ser medido;
e também como se o átomo fosse uma coisa impulsiva
mudando constantemente de idéia.

             

                  [tradução: Leonardo Fróes - Ed. Allambra]

     

 

 

 

 

Confiança

 

Ó temos de confiar
um de novo no outro
em pontos básicos.
 

Não a estreita, mesquinha
 confiança de barganha
 que diz: sou teu
se você for minha.
 

Uma confiança maior
 uma confiança do sol
que não se perturba em nada
 com a ferrugem, as traças,
e que um no outro nós vemos
 brilhando em cada.
 
 

Ó não me confie
não me sobrecarregue
com sua vida e questões; não me envolva
 em suas preocupações.
 
 

Acho que é melhor confiar
 no sol em mim
que brilha exatamente com tanto
 brilho quanto você vê
 em mim, e não mais.
 
 

E se ele esquenta
o cerne célere do seu coração,
 confie pois nele, que forma
 uma fidelidade a mais.
 
 

E seja, ó seja
um sol para mim,
não uma personalidade
 enjoada, insistente,
 

 
mas um sol que cintila
e escurece, mas logo
cintila de novo e entrança
com o brilho do sol em mim
 
 

até ficarmos os dois
mais gloriosos
e ensolarados.

 

          

[tradução: Leonardo Fróes - Ed. Allambra]

                                                                                                                                                                           


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Fernando Pessoa e heterônimos

 

 

VIII - Num Meio-Dia de Fim de Primavera  (frgmento)

 

 

 

     A Criança Nova que habita onde vivo
     Dá-me uma mão a mim
     E a outra a tudo que existe
     E assim vamos os três pelo caminho que houver,
     Saltando e cantando e rindo
     E gozando o nosso segredo comum
     Que é o de saber por toda a parte
     Que não há mistério no mundo
     E que tudo vale a pena.

 

 

                Alberto Caeiro - O Guardador de Rebanhos

 

 

 

 

 

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

 

 

                             Ricardo Reis, 14-2-1933

 

 

 

Adiamento

     

     

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.

Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

                                                                                    Álvaro de Campos

 

 

 

 

292.

Tudo quanto é acção, seja a guerra ou o raciocínio, é falso; e tudo quanto é abdicação é falso também. Pudesse eu saber como não agir nem abdicar de agir! Seria essa a coroa-de-sonho da minha glória, o ceptro-de-silêncio da minha grandeza.

Eu nem sofro. O meu desdém por tudo é tão grande que me desdenho a mim próprio; que, como desprezo os sofrimentos alheios, desprezo também os meus, e assim esmago sob o meu desdém o meu próprio sofrimento.

Ah, mas assim sofro mais... Porque dar valor ao próprio sofrimento põe-lhe o ouro dum sol do orgulho. Sofrer muito pode dar a ilusão de ser o Eleito da Dor.

 
 

Bernardo Soares,   Livro do Desassossego

 

 

 

 

 

 

Nota Preliminar

 

 

 

O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.

 

A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar.

 

A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.

 

A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado.

 

A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.

 

A quinta é a menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e a Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.

 

         

 

Fernando Pessoa, Mensagem

                                                                                                                                                        



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“O fluir da energia circulante nos leva de volta ao nosso próprio centro."

 

 

 

 

 

“É no alcançar do não-t