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sopre as cinzas - silvia schmidt
| QUE VENHA 2008! DO ANO VELHO,
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SOPRE AS CINZAS (só por sacanagem) |
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® Silvia Schmidt |
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Quem feriu você já feriu e já passou. Lá na frente encontrará o inevitável retorno e pelas mãos de outrem será ferido também. A Vida se encarregará de dar-lhe o troco e você, talvez, nem jamais fique sabendo.
O que importa de verdade é o que você sentiu e, mais importante, é o que ainda você sente:
Mágoa? Rancor? Ressentimento? Ódio?
Você consegue perceber que esses sentimentos foram escolhidos por você? Somos nós que escolhemos o que sentir diante de agressões e de ofensas.
Quem nos faz o " mal " é responsável pelo que faz, mas NÓS somos responsáveis pelo que sentimos. Essa responsabilidade tem a ver com o Amor que devemos e temos que sentir por nós mesmos.
O ofensor fez o que fez e o momento passou, mas o que ficou aí dentro de você?
Mágoa? - Você sabia que de todas as drogas ela é a mais cancerígena? Pela sua própria saúde, jogue-a fora.
Rancor? - Ele é como um alimento preparado com veneno irreconhecível: dia mais, dia menos, você poderá contrair doenças de cujas origens nem suspeitará.
Ressentimento? - Pois imagine-se vivendo dentro de um ambiente constantemente poluído, enfumaçado, repleto de bactérias e de incontáveis tipos de vírus: é isso que seu coração e seus pulmões estão tentando aguentar. Até quando você acha que eles vão resistir?
Ódio? - Seus efeitos são paralisantes. Seu sistema imunológico entrará em conflito com esse veneno que com o tempo poderá colocar você face a face com a morte e talvez muito tarde você venha a perceber que melhor seria ter deixado que seu agressor colhesse os frutos do próprio plantio.
Por seu próprio Bem e só pelo seu Bem, perdoe.
O perdão o libertará e o fará livre para ser feliz. Esqueça o " mal " que lhe foi feito. Deixe que seu ofensor lembre-se dele através das consequências com que, certamente, virá a arcar.
Mude seu destino ... seja o comandante da sua nau! Escolha o melhor caminho para sua " viagem ".
... e se outras vezes o ferirem, perdoe ... Perdoe ... nem que seja só por sacanagem ! |
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" O perdão é a única vingança aprovada pelo Universo " Silvia Schmidt |
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® SILVIA SCHMIDT *Humancat* - http://www.humancats.com/ No livro " Sorte É Prá Quem Quer " ©2002 |
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José Gomes Ferreira
Os Matizes de José Gomes Ferreira


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sebastião salgado - herberto helder


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Não só a natureza segue colorida e brilhante independente de nós. As palavras seguem soltas, sem vínculos ou alianças e dizem do mesmo modo de sentimentos e momentos diferentes. Tudo é impermanente, a mudança é constante, os ciclos de vida se sucedem como as estações. É evoluindo em espiral pelo infinito (como a Via Láctea) que vamos, sem jamais voltarmos ao mesmo ponto.
Uma responsabilidade fazer esse caminho cientes que nem a palavra nem a poesia ou a natureza estão aí para darem conta do que é estrita, íntima e profundamente nosso. Tampouco basta dar e/ou receber amor, esse que, como disse Clarice Lispector, nunca há de nos falhar. Há que se arriscar, aceitar os desafios e tomá-los como convites. Irrecusáveis.
O amor deve ser leve e livre para que a vida seja doce, liberta de prisão ou exílio. Um morrer a cada dia e um renascer, vitoriosos, no amor. Esse, o Natal: real e metafórico.
sonia regina |
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In: Esse, o Natal: real e metafórico (fragmento) |
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iimagem: Set Focus |
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sonia regina [soreg] - 2007
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sonia regina [soreg] - 2007

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Maria do Rosário Pedreira
Maria do Rosário Pedreira
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Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos. Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão desvia os passos do medo. Dorme, meu amor -
a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos
agora e sossega a porta está trancada; e os fantasmas da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,
meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.
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Maria do Rosário Pedreira
Imagem: La Ciesta Cotidiana-Van Gogh |
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Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão devagar sobre o peito da terra e sente respirar no seu seio os nomes das coisas que ali estão a crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro e as campainhas azuis; a menta perfumada para as infusões do verão e a teia de raízes de um pequeno loureiro que se organiza como uma rede de veias na confusão de um corpo. A vida nunca foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo. Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor da tempestade que faz ruir os muros: explode no teu coração um amor-perfeito, será doce o seu pólen na corola de um beijo, não tenhas medo, hão-de pedir-to quando chegar a primavera.
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Maria do Rosário Pedreira |
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Diz-me o teu nome - agora, que perdi quase tudo, um nome pode ser o princípio de alguma coisa. Escreve-o na minha mão
com os teus dedos - como as poeiras se escrevem, irrequietas, nos caminhos e os lobos mancham o lençol da neve com os sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,
como a levares as palavras de um livro para dentro de outro - assim conquista o vento o tímpano das grutas e entra o bafo do verão na casa fria. E, antes de partires, pousa-o
nos meus lábios devagar: é um poema açucarado que se derrete na boca e arde como a primeira menta da infância.
Ninguém esquece um corpo que teve nos braços um segundo - um nome sim.
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Maria do Rosário Pedreira |
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Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram
Para o sul à sua procura, deixando um lugar vago
à mesa, um bilhete entalado na porta, as plantas,
o canário, um beijo e um livro emprestado: a memória
das suas biografias incompletas. Os amigos
desaparecem em agosto. Consomem-nos as labaredas do sol
e os amantes que chegam ao fim da tarde
jantam e de manhã ajudam a regar as raízes das avencas
que os amigos confiaram até setembro, quando regressam
trazem saudades e um romance novo debaixo da língua.
Levam um beijo, os vasos, as gaiolas e os amantes
deixam um lugar vago na memória, cabelos na almofada,
uma carta, desculpas, e um livro de cabeceira que os
amigos lêem, pacientes, ocupando o seu lugar à mesa.
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Maria do Rosário Pedreira
In: A Casa e o Cheiro dos Livros, pg. 19
Imagem: Crina-Paula P. | |
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“Eu volto
à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente.”
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Maria do Rosário Pedreira
In: A Casa e o Cheiro dos Livros, pg. 69) |
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“Volto à casa e demoro-me nos quartos frios do silêncio.
Esconderam os retratos dentro dos livros. E os livros
nas gavetas. E fizeram as camas para sempre de lavado”
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Maria do Rosário Pedreira
In: A Casa e o Cheiro dos Livros, pg. 72 |
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Este foi o nosso último abraço. E quando, daqui a nada, deixares o chão desta casa encostarei amorosamente os lábios ao teu copo para sentir o sabor desse beijo que hoje não daremos. E então, sim, poderei também eu partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida foi mais, muito mais, do que mereci.
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Maria do Rosário Pedreira |
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Maria Gabriela Llansol
| "Na verdade, aprofundar a intensidade de viver e deixá-la à natureza, é morrer menos."
Maria Gabriela Llansol
In: Parasceve |
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“Tal como sou acompanhada pelos lagos - águas adormecidas naturais e duráveis -, de igual modo deve fazer parte da sombra, que se desloca comigo, inscrever os dias estendidos por longo período de tempo.”
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Maria Gabriela Llansol
In: Um falcão no punho, Lisboa, Rolim, 1985, p.7. |
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"O meu texto não avança por desenvolvimentos temáticos, nem por enredo, mas segue o fio que liga as diferentes cenas fulgor. Há assim unidade, mesmo se aparentemente não há lógica, porque eu não sei antecipadamente o que cada cena fulgor contém. O seu núcleo pode ser uma imagem ou um pensamento, ou um sentimento intensamente afectivo, um diálogo."
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Maria Gabriela Llansol
In: Um falcão no punho, Lisboa, Rolim, 1985 |
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“Parto escrevendo através da língua portuguesa, tendo deixado por consciência o sol e a água sempre latentes no terreno de Herbais: aqui imaginei, sob a forma de Pessoa, um único rio cósmico que não se quebra em fronteiras e vi-o, sem perplexidade, advir ao real; por essa ocasião, lembro-me de ter sentido o desejo de que não haja países que sejam como guardas de matilhas.”
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Maria Gabriela Llansol
In: Um falcão no punho, Lisboa, Rolim, 1985, p. 120. |
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Abel sentou-se no chão. Via Sara de perfil, debruçada sobre o alguidar em que a brancura dos pratos purificava a água suja. - Sara, tudo o que existe faz aumentar a luz. - Como? - Metes as mãos na água ela sobe no alguidar. Metes nesta casa uma cama, um armário e a luz também tem de aumentar. Tem de ir para algum sítio a luz que já não está no lugar da cama e do armário. - Mas não é assim. - Não. Pensei isto de manhã, enquanto guiava a camioneta. Sara sentou-se também no chão, em frente de Abel. Os seus pés não tinham meias, nem sapatos. As palavras "Sara, tudo o que existe faz aumentar a luz", " Metes nesta casa uma cama, um armário e a luz também tem de aumentar", eram o vidro que desunia os corpos de Sara e Abel.
Maria Gabriela Llansol
excerto de O Chão das Três Árvores. In: Os Pregos na Erva. Edições Rolim, 1987 |
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soreg - Ex Mare Tranquillitatis e Não-ser ilha
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Não-ser ilha
Dispo-me, poema de versos olhados, aparentemente vitalizados do que observo
Se me perdi na maneira sutil de me falarem das flores não me encontrei nas entranhas das pedras, rios, mares nas fronteiras que apaguei, nos litorais que construí nos meridianos que, iludido, simplesmente pulei
Não se atravessa paralelos trocando de lugar
As mesmas palavras em outra posição são as mesmas palavras num estado de imitação, mimesis aristotélica
Do estado de espírito desnudo-me até o real não-ser ilha
Poema urbano em busca do ventre gerador "demito o verso como quem acena e vivo como quem despede a raiva de ter visto" (1)
Sonia Regina 10.12
(1) Ana Cristina César, in Psicografia
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Ex Mare Tranquillitatis *
Sonia Regina
Não se mantivera aceso entre as pitangueiras durante a agonia das trevas e como um farol rompera a escuridão por causa de prestígio. Por causa de nada. Por causa de tudo. Simplesmente assim era. Iluminava palavras perdidas durante a noite e não conhecia o despertar do dia que através dos baixos galhos erguia-se no tempo, apoiado no pio dos pássaros de bicos reluzentes.
Era verão e o ar morno da Bahia cheirava a fruta madura, nessa noite em que prestou atenção aos vestígios do mar, quando atravessava o areal. Ouvia-se o marulhar das ondas.
Viu quando, por um fiapo de nuvem, desceu o anjo da madrugada. E do Mar da Tranqüilidade avistou o Porto Seguro que o acolheria, luar.
* Ex Mare Tranquillitatis – do Mar da Tranqüilidade
“O Mare Tranquillitatis ou Mar da Tranqüilidade é uma região lunar, feita de lava basáltica solidificada, localizada na face brilhante da Lua” Wikipedia |
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Ana Cristina Cesar
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Ana Cristina Cesar |
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olho muito tempo o corpo de um poema
olho muito tempo o corpo de um poema até perder de vista o que não seja corpo e sentir separado dentre os dentes um filete de sangue nas gengivas
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Ana Cristina Cesar |
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tu queres sono: despede-te dos ruídos
tu queres sono: despe-te dos ruídos, e dos restos do dia, tira da tua boca o punhal e o trânsito, sombras de teus gritos, e roupas, choros, cordas e também as faces que assomam sobre a tua sonora forma de dar, e os outros corpos que se deitam e se pisam, e as moscas que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças) que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que esqueceram teus braços e tantos movimentos que perdem teus silêncios, o os ventos altos que não dormem, que te olham da janela e em tua porta penetram como loucos pois nada te abandona nem tu ao sono.
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Ana Cristina Cesar |
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um beijo
que tivesse um blue. Isto é imitasse feliz a delicadeza, a sua, assim como um tropeço que mergulha surdamente no reino expresso do prazer. Espio sem um ai as evoluções do teu confronto à minha sombra desde a escolha debruçada no menu; um peixe grelhado um namorado uma água sem gás de decolagem: leitor embevecido talvez ensurdecido "ao sucesso" diria meu censor "à escuta" diria meu amor
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Ana Cristina Cesar |
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Anônimo
Sou linda; quando no cinema você roça o ombro em mim aquece, escorre, já não sei mais quem desejo, que me assa viva, comendo coalhada ou atenta ao buço deles, que ternura inspira aquele gordo aqui, aquele outro ali, no cinema é escuro e a tela não importa, só o lado, o quente lateral, o mínimo pavio. A portadora deste sabe onde me encontro até de olhos fechados; falo pouco; encontre; esquina de Concentração com Difusão, lado esquerdo de quem vem, jornal na mão, discreta.
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Ana Cristina Cesar |
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Casablanca
Te acalma, minha loucura! Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados! Este som de serra de afiar facas não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardías... Estas molas a gemer no quarto ao lado Roberto Carlos a gemer nas curvas da Bahia O cheiro inebriante dos cabelos na fila em frente no cinema... As chaminés espumam pros meus olhos As hélices do adeus despertam pros meus olhos Os tamancos e os sinos me acordam depressa na madrugada feita de binóculos de gávea e chuveirinhos de bidê que escuto rígida nos lençóis de pano
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Ana Cristina Cesar |
Protuberância
Este sorriso que muitos chamam de boca É antes um chafariz, uma coisa louca Sou amativa antes de tudo Embora o mundo me condene Devo falar em nariz (as pontas rimam por dentro) Se nos determos amanhã Pelo menos não haverá necessidades frugais nos espreitando Quem me emprestar seu peito na madrugada E me consolar, talvez tal vez me ensine um assobio Não sei se me querem, escondo-me sem impasses E repitamos a amadora sou Armadora decerto atrás das portas Não abro para ninguém, e se a pena é lépida, nada me detém É sem dúvida inútil o chuvisco de meus olhos O círculo se abre em circunferências concêntricas que se Fecham sobre si mesmas No ano 2001 terei (2001-1952=) 49 anos e serei uma rainha Rainha de quem, quê, não importa E se eu morrer antes disso Não verei a lua mais de perto Talvez me irrite pisar no impisável E a morte deve ser muito mais gostosa Recheada com marchemélou Uma lâmpada queimada me contempla Eu dentro do templo chuto o tempo Um palavra me delineia VORAZ E em breve a sombra se dilui, Se perde o anjo.
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Ana Cristina Cesar |
| Noite Carioca
Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo.
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Ana Cristina Cesar |
| Encontro de Assombrar na Catedral
Frente a frente, derramando enfim todas as palavras, dizemos, com os olhos, do silêncio que não é mudez. E não toma medo desta alta compadecida passional, desta crueldade intensa que te toma as duas mãos.
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Ana Cristina Cesar |
| Este Livro
Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two total., tilintar de verdade que você seduz, charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a carapuça. E cante. Puro açúcar branco e blue.
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Ana Cristina Cesar |
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é muito claro amor bateu para ficar nesta varanda descoberta a anoitecer sobre a cidade em construção sobre a pequena constrição no teu peito angústia de felicidade luzes de automóveis riscando o tempo canteiros de obras em repouso recuo súbito da trama
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Ana Cristina Cesar |
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Quando entre nós só havia uma carta certa a correspondência completa o trem os trilhos a janela aberta uma certa paisagem sem pedras ou sobressaltos meu salto alto em equilíbrio o copo d’água a espera do café
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Ana Cristina Cesar |
| Aventura na Casa Atarracada
Movido contraditoriamente por desejo e ironia não disse mas soltou, numa noite fria, aparentemente desalmado; - Te pego lá na esquina, na palpitação da jugular, com soro de verdade e meia, bem na veia, e cimento armado para o primeiro a andar.
Ao que ela teria contestado, não, desconversado, na beira do andaime ainda a descoberto: - Eu também, preciso de alguém que só me ame. Pura preguiça, não se movia nem um passo. Bem se sabe que ali ela não presta. E ficaram assim, por mais de hora, a tomar chá, quase na borda, olhos nos olhos, e quase testa a testa.
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Ana Cristina Cesar |
| O Homem Público N. 1 (Antologia)
Tarde aprendi bom mesmo é dar a alma como lavada. Não há razão para conservar este fiapo de noite velha. Que significa isso? Há uma fita que vai sendo cortada deixando uma sombra no papel. Discursos detonam. Não sou eu que estou ali de roupa escura sorrindo ou fingindo ouvir. No entanto também escrevi coisas assim, para pessoas que nem sei mais quem são, de uma doçura venenosa de tão funda.
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Ana Cristina Cesar |
| Nada, Esta Espuma
Por afrontamento do desejo insisto na maldade de escrever mas não sei se a deusa sobe à superfície ou apenas me castiga com seus uivos. Da amurada deste barco quero tanto os seios da sereia.
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Ana Cristina Cesar |
OBS. os oito poemas finais foram selecionados por Manoel Ricardo de Lima para o Jornal de Poesia
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D. H. Lawrence
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D. H. Lawrence |
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| Uma revolução sadia
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Se você fizer uma revolução, faça curtindo,
Não me venha com uma cara zangada
de seriedade mortífera,
faça uma revolução engraçada.
Não a faça por odiar as pessoas
e, sim, só para abrir os seus olhos.
Não faça uma revolução por dinheiro,
faça-a por fazer e que o dinheiro se dane.
Que a revolução não seja pela igualdade,
mesmo porque iguais nós já ficamos demais:
gozado agora seria ter o caldo entornado
e ver que rumo as coisas tomam rolando.
Não faça uma revolução pela classe
dos trabalhadores, mas sim para que cada um de nós
possa ser uma aristocracia em si mesmo
pulando com euforia, como os burros que escapam.
Sobretudo não faça uma revolução em defesa
do serviço do qual nós já tivemos bastante.
Vamos abolir o serviço, a ocupação compulsória!
O trabalho pode ser divertido, curtido pelos homens, e assim não ser
mais serviço.
Vamos fazer assim! Vamos fazer uma revolução por prazer! |
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[tradução: Leonardo Fróes - Ed. Allambra]
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O mosquito sabe
O mosquito, pequeno como é, sabe
muito bem que é de rapina.
Mas afinal
ele só tira o que lhe enche a barriga,
não bota o nosso sangue no banco.
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[tradução: Leonardo Fróes - Ed. Allambra]
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Relatividade
Gosto das teorias da relatividade e dos quanta porque não as compreendo e elas me fazem sentir como se o espaço mudasse de lugar como um cisne que não pode acomodar-se, estar imóvel, ser medido; e também como se o átomo fosse uma coisa impulsiva mudando constantemente de idéia. |
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Confiança
Ó temos de confiar um de novo no outro em pontos básicos.
Não a estreita, mesquinha confiança de barganha que diz: sou teu se você for minha.
Uma confiança maior uma confiança do sol que não se perturba em nada com a ferrugem, as traças, e que um no outro nós vemos brilhando em cada.
Ó não me confie não me sobrecarregue com sua vida e questões; não me envolva em suas preocupações.
Acho que é melhor confiar no sol em mim que brilha exatamente com tanto brilho quanto você vê em mim, e não mais.
E se ele esquenta o cerne célere do seu coração, confie pois nele, que forma uma fidelidade a mais.
E seja, ó seja um sol para mim, não uma personalidade enjoada, insistente,
mas um sol que cintila e escurece, mas logo cintila de novo e entrança com o brilho do sol em mim
até ficarmos os dois mais gloriosos e ensolarados. |
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[tradução: Leonardo Fróes - Ed. Allambra] |
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Fernando Pessoa e heterônimos

VIII - Num Meio-Dia de Fim de Primavera (frgmento)
A Criança Nova que habita onde vivo Dá-me uma mão a mim E a outra a tudo que existe E assim vamos os três pelo caminho que houver, Saltando e cantando e rindo E gozando o nosso segredo comum Que é o de saber por toda a parte Que não há mistério no mundo E que tudo vale a pena.
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Alberto Caeiro - O Guardador de Rebanhos |
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Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive.
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Ricardo Reis, 14-2-1933 |
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Adiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã... Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, E assim será possível; mas hoje não... Não, hoje nada; hoje não posso. A persistência confusa da minha subjetividade objetiva, O sono da minha vida real, intercalado, O cansaço antecipado e infinito, Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico... Esta espécie de alma... Só depois de amanhã... Hoje quero preparar-me, Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte... Ele é que é decisivo. Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos... Amanhã é o dia dos planos. Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo; Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã... Tenho vontade de chorar, Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo. Só depois de amanhã... Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana. Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância... Depois de amanhã serei outro, A minha vida triunfar-se-á, Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático Serão convocadas por um edital... Mas por um edital de amanhã... Hoje quero dormir, redigirei amanhã... Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância? Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã, Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo... Antes, não... Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser. Só depois de amanhã... Tenho sono como o frio de um cão vadio. Tenho muito sono. Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã... Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir... Sim, o porvir... |
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292.
Tudo quanto é acção, seja a guerra ou o raciocínio, é falso; e tudo quanto é abdicação é falso também. Pudesse eu saber como não agir nem abdicar de agir! Seria essa a coroa-de-sonho da minha glória, o ceptro-de-silêncio da minha grandeza.
Eu nem sofro. O meu desdém por tudo é tão grande que me desdenho a mim próprio; que, como desprezo os sofrimentos alheios, desprezo também os meus, e assim esmago sob o meu desdém o meu próprio sofrimento.
Ah, mas assim sofro mais... Porque dar valor ao próprio sofrimento põe-lhe o ouro dum sol do orgulho. Sofrer muito pode dar a ilusão de ser o Eleito da Dor. |
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Bernardo Soares, Livro do Desassossego |
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Nota Preliminar
O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.
A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar.
A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.
A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado.
A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.
A quinta é a menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e a Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.
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Fernando Pessoa, Mensagem |

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soreg - doce, livre de prisão ou exílio
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A flor e o tempo: a intervenção alquímica da natureza
“O fluir da energia circulante nos leva de volta ao nosso próprio centro." |
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“É no alcançar do não-t | | | |