no fluir da metonímia: poemas e imagens

  

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no fluir da metonímia

poemas e imagens

além da linha d'água

 

 

 

 

 

                                                                  

        

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Ana Cristina César

 

como rasurar a paisagem 
 



a fotografia é um tempo morto 
fictício retorno à simetria 
secreto desejo do poema 
censura impossível 
do poeta   

                      

                    Ana Cristina Cesar 

 

A Ponto de Partir
 
 

A ponto de
partir, já sei
que nossos olhos
sorriam para sempre
na distância.
Parece pouco?
Chão de sal grosso, e ouro que se racha.
A ponto de partir, já sei que nossos olhos sorriem na distância.
Lentes escuríssimas sob os pilotis.

 

                                                                     Ana Cristina Cesar 

 

 

            

 

toda mulher

 

a coisa que mais o preocupava
naquele momento
era estudo de mulher

toda mulher
dos quinze aos dezoito.

Não sou mais mulher.
Ela quer o sujeito.
Coleciona histórias de amor.

 

       Ana Cristina Cesar

 



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soreg - No Caribe

 

 

"Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia. 

 

Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera. "

 

Clarice Lispector

 

 

 

 

 

   
   

 

 

 

 

no Caribe

 

 

 

com o pano desce a noite, no Caribe

(nem se sente o gosto de mais um beijo

quando se apagam as velhas palavras),

e no chão do palco vamos ao infinito

eu e minhas asas, que já não ardem.

 

naquele prego atrás da máscara

há mais poesia que na sala toda

e um poema nasce, do caos,

 

mantendo acesa minha inquietude.

testemunha o que me consome

 

e queima.

 

 

 

sonia

nov 2007

 

 


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soreg - sem partida marcada: de chegada, só. Sem certezas

 

                                             PRIMEIRO LUGAR DO QUARTO DESAFIO DE PROSA - LISTA  DE CRIAÇÃO E DISCUSSÃO LITERÁRIA AMANTE DAS LEITURAS

 



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soreg - simplesmente, o sal

 

 

simplesmente, o sal

 

 

 

 

 

olha, vou pro mar.

 

com ele tenho uma relação poética feliz

- mais conciliadora que trágica - ,

o poema não se esvai pelas bordas

                                                                       

ou ranhuras, varandas abertas

(cicatrizes das casas).

 

na verdade, não me consome letra alguma

nem padecem de postura, as minhas palavras,

 

como mães dolorosas de versos doentes.

 

o mar escreve em mim.

e se nele mergulho meus sentidos

ele cresce, pátria, vigorosa

 

raiz do que de mais íntimo temos em nós.

juntos somos suave e bravo movimento,

 

tão estáveis quanto é possível ser

a instabilidade das vagas.

 

vocábulos líquidos de inequívoco verbo,

sem nenhum esforço ou intenção somos,

 

simplesmente,

 

o sal na água.

 

 

 

 

sonia regina

23.11.07

 

 

 

Imagem: Niko Guido

 



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soreg - basta seguir-lhe o ritmo

 

 

 

basta seguir-lhe o ritmo

 

 

 

  

se precisas escrever,

que sejam as palavras que te freqüentam

o íntimo, as escolhidas.

 

as que tocam a morte, não há porque atar-te

à dor que carregam;

tua sensibilidade te dirá – ouve-a -  

 

o quanto podes suportar de seu peso

[porque elas o têm, sem dúvida alguma]

 

mas, vê, tens direito à passagem

e há tantos caminhos, tantos

 

atalhos e desvios, tantas possibilidades

 quando o que menos importa é o rumo

 

a língua é um manancial,

basta seguir-lhe o ritmo

 

e chegarás ao poema.

 

 

 

sonia regina

19.11.07

 

 

 

 

Imagem:  Pansa Sunavee

 

 



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Álvaro de Campos - Escrito Num Livro Abandonado em Viagem

 

 

 

 


Escrito Num Livro Abandonado em Viagem

 



Venho dos lados de Beja.
Vou para o meio de Lisboa.
Não trago nada e não acharei nada.
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
E a saudade que sinto não é nem no passado nem no futuro.
Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
Fui, como ervas, e não me arrancaram.

 

 

 

                                                                    Álvaro de Campos



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soreg - mingua, a poesia

 

 

mingua, a poesia

 

 

 

o poema abandona os corpos tornados coisa;

as almas dadas a arrojos românticos,

de natureza tímida;

os com pouca audácia.

as palavras migram na superfície da pele.

sem a carne, mingua a poesia

que não comunicam os corações

que se deixam forrar sem retirar-lhes a película,

invólucros impenetráveis às mordidas dos sentidos.

 

 

 

sonia regina

17.11.07

 

 

Imagem: Katerina Lomonosov

 



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soreg - ermos não sucumbem

 

 

 

ermos não sucumbem

 

 

 

 

 

sentada à soleira da porta, só

e muito quieta, colhia a geada

assim que a lua partia

 

e a aquecia, afetuosamente,

em seu colo.

 

afeto agreste, sem resumo possível,

 

um ermo

 

que não sucumbia, mesmo

vencido pela emoção.

 

 

 

sonia regina

17.11.07

 

 

 

 

imagem:  violetta  tarnowska

 



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soreg - interstício

 

 

interstício

 

 

 

 

 

quase manhã.

a lembrança se tornava memória

 

do tempo que esticava o ponteiro

das horas e o beijo não desenhava

o sol na areia,

 

nem era azul o abraço do mar.

 

a vida seguira constante na imprecisão,

farrapo de espuma em mar encapelado;

 

a sombra se mantivera translúcida.

 

anjos batem as asas sobre os sonhos,

 

nos dias em que tudo é cansaço

e a noite engole o calor da alegria

 

: nada se respira que não se perca

pelo caminho, na paisagem bordada.

 

à ternura da alga, abre-se o horizonte

e, ao sabor do vento, a alvorada.

 

 

sonia regina

14.11.07

 

 

 

 

 

Imagem: Woody Woodworth

 

 

 

 

 

 

 

chamam o brilho da chama

os 'versos que serpenteiam' ,   [1]

 

como a brisa

 

sobre a água.  em cada letra

abrasada os meus cabelos

 

alouram, suspensos

no segredo da Iara.

 

 

 

 

sonia regina

12.11.07

 

 

 

[1] Manuel C.Amor in Do meu eu poético



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Cecília Meireles - Cânticos V

 

"Há uma árvore de gotas em todos os paraísos."


Herberto Helder

(in O poema contínuo)

 

 

 

 

 

Cânticos

 

V

 

 

 

 

Esse teu corpo é um fardo.

É uma grande montanha abafando-te.

Não te deixando sentir o vento livre

Do infinito.

Quebra o teu corpo em cavernas

Para dentro de ti rugir

A força livre do ar.

Destrói mais essa prisão de pedra.

Faze-te recepo.

Ãmbito.

Espaço.

Amplia-te

Sê o grande sopro

Que circula...

 

 

Cecília Meireles



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Sylvia Plath - Lorelei

 

 

 

 

 

LORELEI

 



Não existe nenhuma noite para nos afogarmos:
lua cheia, um rio correndo
negro sob um suave reflexo de espelho,

névoas azuis da água gotejando
de malha para malha como redes de pesca
embora os pescadores durmam,

torres sólidas do castelo
multiplicando-se num espelho
todo ele silêncio. Mas estas formas flutuam

em minha direção, perturbando o rosto
da quietude. Do nadir
erguem os seus membros plenos

de opulência, cabelos mais pesados
que o mármore esculpido. Cantam
um mundo mais cheio e límpido

do que aquele que existe. Irmãs, a vossa canção
traz uma carga demasiado pesada
para ser escutada pelas espirais do ouvido,


aqui, num país onde um sensato
senhor governa equilibradamente.
Ao serem perturbadas pela harmonia

que existem além da ordem deste mundo,
as vossas vozes fazem um cerco. Estais alojadas
nos recifes em declive do pesadelo,

prometendo um abrigo certo;
de dia, estendem-se para além dos limites
da inércia, das saliências

que existem também nas altas janelas. Pior
ainda que esta canção de enlouquecer
é o vosso silêncio. Na origem

do apelo do vosso coração gelado
- a embriaguez das grandes profundezas.
Ó rio, como vejo serem arrastadas

lá no fundo do teu curso de prata,
aquelas grandes deusas da paz.
Pedra, pedra, leva-me lá para baixo.

 

 

Sylvia Plath

 

 

 

Imagem: Marcel Lorange



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carlos drummond - a metafísica do corpo

 

 

A METAFÍSICA DO CORPO 

 

 

 

 

A metafísica do corpo se entremostra

Nas imagens. A alma do corpo

Modula em cada fragmento sua música

De esferas e de essências

Além da simples carne e simples unhas. 

Em cada silêncio do corpo identifica-se

A linha do sentido universal

que à forma breve e transitiva imprime

A solene marca dos deuses

E do sonho. 

Entre folhas, surpreende-se

Na última ninfa

O que na mulher ainda é ramo e orvalho

E,mais que na natureza, pensamento

Da unidade inicial do mundo: 
 

Mulher planta brisa mar,

O ser telúrico, espontâneo,

Como se um galho fosse da infinita

Árvore que condensa

O mel, o sol, o sal, o sopro acre da vida 

De êxtase e tremor banha-se a vista

Ante a luminosa nádega opalescente,

A coxa, o sacro ventre, prometido

Ao ofício de existir, e tudo mais que o corpo

Resume de outra vida, mais florente,

Em que todos fomos terra, seiva e amor. 

Eis que se revela o ser, na transparência

Do invólucro perfeito 

 

 

                Carlos Drummond de Andrade



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soreg - com uma franca expressão de encanto

 

 

 

com uma franca expressão de encanto

 

 

 

 

 

a que distância um nome deixava de doer?

admirada, com uma franca expressão

de encanto no olhar, percebera, enfim.

 

ele passara através do seu céu, “ave silenciosa,

 

trazendo consigo umbigo de luz” (1) se perdera

em seus olhos, num beijo sem oceano.

 

 

 

sonia regina

6.11.07

 

 

 

(1) Poema con L a voar com o pássaro de mãos dadas.

In: Laços y Lazos

 

 

 

Imagem: Nina Nina

 



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Luís Carlos Patraquim - MUHIPITI

 

 

MUHIPITI

 


E onde deponho todas as armas. Uma palmeira
harmonizando-nos o sonho. A sombra.
Onde eu mesmo estou. Devagar e nu. Sobre
as ondas eternas. Onde nunca fui e os anjos
brincam aos barcos com livros como máos.
Onde comemos o acidulado último gomo
das retóricas inúteis. E onde somos inúteis.
Puros objectos naturais. Uma palmeira
de missangas com o sol. Cantando.
Onde na noite a Ilha recolhe todos os istmos
e marulham as vozes. A estatuária nas virilhas.
Golfando. Maconde não petrificada.
É onde estou neste poema e nunca fui.
O teu nome que grito a rir do nome.
Do meu nome anulado. As vozes que te anunciam.
E me perco. E estou nu. Devagar. Dentro do corpo.
Uma palmeira abrindo-se para o silêncio.
E onde sei a maxila que sangra. Onde os leopardos
naufragam. O tempo. O cigarro a metralhar
nos pulmões. A terra empapada. Golfando. Vermelha.
E onde me confunde de ti. Um menino vergado
ao peso de ser homem. Uma palmeira em azul
humedecido sobre a fronte. A memória do infinito.
O repouso que a si mesmo interroga. Ouve.
A ronda e nenhum avião partiu. E onde estamos.
Onde os pássaros são pássaros e tu dormes.
E eu vagueio em soluços de sílabas. Onde
Fujo deste poema. Uma palmeira de fogo.
Na Ilha. Incendiando-nos o nome.

 

Luís Carlos Patraquim, poeta de Moçambique

 

 



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soreg - para além das palavras

 
 

para além das palavras

 

 

 

 

 

 

vim dos tempos em que as estrelas brilhavam,

corpos celestes, num firmamento inacessível

 

tinha uma mãe indígena, uma branca,

uma negra, que me contavam histórias

 

e eu acreditava: não conhecia as metáforas.

 

o alinhavo dos versos era ritmado,

como o balanço da água doce

da lagoa e o da maré, salgada.

 

talvez tivesse pouco e, contudo,

sentia-me feliz, quase plena;

 

mas o tempo não se cosia

nem, como às aves era

costume, se empalhava.

 

aprendi sobre as metáforas e nada tenho;

ser poeta não me trouxe segurança alguma,

quanto à palavras.

 

ainda que a natureza me invada, pelo discurso,

não é o poema a minha casa: não sou fingidora

 

e nem sei se sou poeta, nessas horas

em que me atormenta a fala e fico solta,

distante de qualquer entendimento.

 

às vezes me perco em Camões.

não há anjo que me procure, não conheci

Goa, a ilha de Brianda, a cidade dourada.

 

no nada que respiro (onde resido) ainda

me contam histórias - nas quais creio, 

porque salpicam meu céu de existências -

para além das palavras.

 

 

 

sonia regina

8.11.07

 

 

Ilustração executada em 1880 comemorando o 3º Centenário da Morte de Camões

 

 

 

 

 

 

" Ergo suavemente um galho; o pássaro está ali chocando os ovos. Não levanta vôo. Somente estremece um pouco. Tremo por fazê-lo tremer. Tenho medo de que o pássaro que choca saiba que sou um homem, o ser que deixou de ter a confiança dos pássaros. Fico imóvel. Lentamente se acalmam o medo do pássaro e o meu medo de causar medo. Deixo o galho voltar ao seu lugar. Voltarei amanhã. Hoje trago comigo uma alegria: os pássaros fizeram um ninho no meu jardim...".

 

Bachelard.   In: A Poética do Devaneio

 

 

 

imagem:  Mike Gal



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soreg - um entre, de gelo ou brasa

 

um entre, de gelo ou brasa

 

 

 

a toca é simétrica às asas: foge da raiz.

a diferença está no desdém que não tem à terra,

 

na não oposição ou resistência na aproximação

que não mantém com o horizonte.

 

um lugar

não virtual, não real;

um entre,

 

 

sem safra ou pouso.

uma queimação,

 

de gelo ou brasa.

 

 

 

sonia regina

7.11.07 

 



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Drummond - Reconhecimento do Amor (fragmento)

 

 
 

 

 

"(...)

Queria talvez - sem o perceber, juro –
sadicamente massacrar-te
sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam
desde a hora do nascimento,
senão desde o instante da concepção em certo mês perdido na História,
ou mais longe, desde aquele momento intemporal
em que os seres são apenas hipóteses não formuladas
no caos universal.
Como nos enganamos fugindo ao amor!
Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar
sua espada coruscante, seu formidável
poder de penetrar o sangue e nele imprimir
uma orquídea de fogo e lágrimas."

 


Carlos Drummond de Andrade, Reconhecimento do Amor (fragmento)

 

imagem: Charalampos  Mavrommatis