no fluir da metonímia: poemas e imagens

  

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no fluir da metonímia

poemas e imagens

além da linha d'água

 

 

 

 

 

                                                                  

        

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monólogo: “motocontínuo”

 

monólogo: “motocontínuo”

 

 

  

- a minha falta de sentido é tão própria

eu diria mesmo que...irredutível

 

talvez vos dê uma dimensão do susto

 

a mim, inferniza os cabelos,

por isso escrevo

: o processo da escrita amortiza

 

e o poema, ah, o poema me embeleza

a alma, o corpo, a vida, a música,

tudo. Tudo brilha, é colorido, há frescor

 

o desfocado se acerta, nada perturba

[nem a imagem]

o eu - escritura de mim –

motocontínuo.

 

 

 

 

sonia regina

29.8.07

 



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seiva, magma dos sentidos

 

 

seiva, magma dos sentidos

 

 

 

 

acordes imprevisíveis, como um jazz,

pairam sobre ponte que se sustém

sobre o abismo do esquecimento

 

não há memória de solidão na flor do outono

 

escorre a seiva, magma dos sentidos,

adere ao corpo novo de fruto

 

no tempo perdido em branco a pele

ressequida, comprometida com o medo

do brado dengoso das folhas

 

canto de sereia a disputar noites,

ruído enganchado nos dias idos.

 

 

 

sonia regina

30.8.07

 



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as sílabas rodopiam, folhas

 

as sílabas rodopiam, folhas

 

 

 

há um aroma de frutas no cálice aberto

da flor no outono e há a palavra branca

que no meu poema sorri, a cada acorde

da umidade

 

jorro insubmisso à revelação impossível

as sílabas rodopiam, folhas

 

lábios felizes, ardentes, a murmurar

 

 

 

sonia regina

29.8.07

 

 

 

 

imagem: Boris Itkin



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poema é gesto

 

 

 

 

 

poema é gesto

 

 

 

“o poema vitaliza a vida se a toca nalguns pontos.

o poema gera uma vida nesses pontos tocados”

(herberto helder)

 

 

 

o mar, sempre; nele eu me narro vento  

na gestação do sopro em que me torno brisa

e suave te visito

 

a realidade não passa de um novelo de fios.

alguns geram gestos de amor, se insinuam

nos versos

 

o sensível fala

de um ou de outro jeito se desenvolve

 

e se atualiza

poema.

 

 

 

sonia regina

28.8.07



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à beira do tempo

 

à beira do tempo

 

 

 

com um gesto perturbador o poema empurra a vertigem

e fica, a cargo da mão, o branco do papel

 

do centro para a borda, como uma sopa quente tomada

pelo avesso, caminharam os dedos

 

à beira do tempo, a imagem arde.

 

 

 

sonia regina

28.8.07



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alvo, um prolongamento da mão

 

alvo, um prolongamento da mão

 

 

 

teu sorriso de arqueiro

teus olhos azuis

: um alento vivo.

 

o alvo, um prolongamento

da mão

 

que retesa o arco, 

atira a flecha.

 

 

 

sonia regina

26.8.07

 

 

 

 

imagem:  rezgui



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o cavalo e o pasto despedem-se

 

 

 

 

o cavalo e o pasto despedem-se

 

  

 

anônimos e discretos, como personagens

de um diário íntimo numa qualquer passagem

romanesca,  despedem-se

 

: libertos das circunstâncias do vento.

 

  

 

sonia regina  [soreg]

rio, 25.8.07

 

 

 

imagem: kerim marangoz



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rastros

 

 

 

 

rastros

 

 

 

pergunto-me como tocas o céu do meu eu

se não estou mais do que a mulher que olha

[sem sorrisos]

o azul através dos vãos entre as folhas

 

mas ontem ri com gosto

 

e sei que escrever-me é deixar rastros

[embora pouco previsíveis]

de um acesso já sem vestígios.

 

sonia regina

23.8.07

 

imagem:     woman at the window’, caspar david friedrich, 1822
                    © staatliche museen zu berlin

 



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eu e o vento

 

 

 

 

eu e o vento

 

 

 

 

 

sem forma, o vento livre adere à minha pele,
como um vestido molhado.
cavalgamos o pensamento que realça
a substância, minha própria natureza

liberta, solta no pasto

 

 

sonia regina

21.8.07



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sorrisos frescos

 

 

"Quando digo: estou a ver aquilo ali, isso não significa que tenha sido

estabelecida uma equação entre mim e a coisa…

Mas no sonho está presente uma equação.

As coisas que eu vejo vêem-me, tal como eu as vejo a elas."

Paul Valéry

 
 
 

sorrisos frescos

(um enigma situa o não-assimilado)

 

 
 

quando retorno um olhar

somente não retribuo

o que não pude absorver

 

um enigma situa distante

o inacessível cultuado

 

mas há passagens

 

e não só no sonho

eu vejo quem me vê

 

 

 

22.8.07

sonia regina



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 afetante e afetado

  

 meu corpo salgado não é ainda conhecido dos dedos

 em que meus cabelos molhados se enrolam, ao dormir.

 

 nem sei se a poesia suspenderá os versos cedidos

 à força anímica de uma realidade de afetos ativos;

 

 sei é que, por agora, o físico torna poema as paixões

 e intensidades que fazem acontecer o corpo

 

 e as águas, que na escritura correm

 num fio, pela página.
 

 

sonia regina

20.8.07



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nem todo novo dia será um dia seguinte

 

 

 

 

«Todo o texto conduz ao exemplo do mundo, narra a parábola do regresso e apresenta a cerimónia da paisagem» 

 

Herberto Helder,   in  Apresentação do Rosto

 

 

 

 

 

 

I

 

a ternura azul [cor da amizade]

não leva na mão senão parte

da paisagem das palavras floridas,

salgadas

 

: o sigilo sempre jogará com a cor

 da flor de um mar verde.

 

 

II

 

 

o tempo não cabe nas voltas do pensamento.

é num rito de passagem que o coração

reescreve as braçadas no mar,

deixa nas ondas a cor de certos dias, e avança

 

sem afirmar se todo novo dia será um dia seguinte.

 

 

 

sonia regina

19.8.07
 



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nas margens do rio se arredondam as pétalas

 

 

 

ao amanhecer eu me envolvo na canção dos búzios

que a caravela deixou nesta praia, a minha casa

junto ao mar.

é fácil transportar-me sobre as ondas de Gauguin

 

meu corpo em exaltação deita contigo, ao vento,

sem batalhas o verde anunciado é a minha voz

do Tahiti, onde a distância faz diferença no verão.

 

na minha face esculpida pelas lágrimas um sorriso

devasta a saudade

 

e dos traços de quem me amou milagrosamente

nas margens do rio se arredondam as pétalas

dos meus lábios para um novo beijo.

 

 

 

 

18.8.07

sonia regina
 

 



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borboleta

 

 

 

ah, borboleta, segue a tua natureza e

“que sejas prioridade, não uma opção”.

 

dói nascer.

sair do casulo, não.

 

vai-te desse turbilhão. livre,

as asas leves, prontas pro vôo.

 

as memórias contigo: tuas.

 

 

 

 

17.8.07

sonia regina
 



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Tente entender o que pinto e o que escrevo agora. Vou explicar: na pintura como na escritura procuro ver estritamente no momento em que vejo – e não ver através da memória de  ter visto num instante passado. O instante é este. O instante é de uma iminência que me tira o fôlego. O instante é em si mesmo iminente. Ao mesmo tempo que eu o vivo, lanço-me na sua passagem para outro instante.

 

 

 

Clarice LIspector

Água Viva, p.91



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por alguma porosidade

 

 

 

 

 

embora sem pedra fundamental ou lâmpada maravilhosa,

um toque certo libera - por alguma porosidade -

esse anônimo que me povoa de júbilo.

 

de uma impressão tênue que se acende em mim,

ele salta a me contar das não-misérias;

 

de como não há solidão ainda que estejam vazios os espelhos,

que a morte de cada segundo não afeta a paisagem que vejo

 

e recrio.

 

 

 

 

sonia regina

15.8.07

 

 

 

 

imagem: turner



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eu, e meu beijo

 

 

 

quando em uma hora qualquer a vida me disser adeus,

já nada haverá a não ser o cansaço

e alguma tristeza pelo que poderiam ter sido os poemas.

 

saberemos, então, porque não havia palavra em nome

da qual se pudesse prender o meu verso:

não era só meu coração o que se soltava dos dedos,

entre o papel e o lápis. era eu, toda.

 

eu, e meu beijo.

 

sonia regina

13.8.07



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das escritas de ti

 

 

 

 

 

amo-te, poeta. ainda que sem poema.

sem verso. sem coração que ria, chore,

delire

 

sangre

 

e selvagem se escreva, livre.

 

amo-te na tua poesia entusiasmada, viva

que não quer, a escritura, usinada.

a palavra, violada.

e, como corpos sem alma,

as imagens

                ocas, vazias.

 

amo-te quando não queres

ver, na página, senão a flama

 

a verve

 

das escritas de ti

 

: tu,

no teu não-querer.

 

 

 

10.8.07

sonia regina

 



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clarice lispector

 

 

Estrela perigosa

 

Estrela perigosa
Rosto ao vento
Barulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idéias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.
No obscuro erotismo de vida cheia
nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na proximidade de fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas e olhos,
todos mortos se misturam e clamam por vida.
Sinto a falta dele
como se me faltasse um dente na frente:
excrucitante.
Que medo alegre,
o de te esperar.
 

Clarice Lispector

 



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edição do laboratório da palavra, de 06.08.07 (com som) - visite http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra/message/784



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sempre em movimento

 

sonia regina

 

 

 

(30.7.07)

 

com palavras que se derrotam a poesia

continuaria adormecida, nunca dizendo

do infinito.

 

mas acorda da delicadeza para tocar

o sol com uma letra; ao sabor do vento

ousar

 

sílaba a sílaba.

 

o tempo passar, para as escrituras,

ultrapassar espaços e sons

 

é como olhar o mar e, da janela de onde

já não se vêem os barcos, saber que eles

lá estão, sempre em movimento.

 

talvez, agora, mais próximos do horizonte.



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