no fluir da metonímia: poemas e imagens

  

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no fluir da metonímia

poemas e imagens

além da linha d'água

 

 

 

 

 

                                                                  

        

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Se cada dia cai, dentro de cada noite,

há um poço

onde a claridade está presa.

 

Neruda, Pablo. Se cada dia cai  (fragmento). Últimos Poemas

 

 

 Invejei bastante o quintal de Rubem Braga, onde seu pé-de-milho pendoou[1]. Agora não invejo ninguém, com casa ou apartamento com varanda. Algumas idéias, palavras, e pronto: construí um quintal, no meu apartamento. Dessas coisas que só a escrita realiza, depois de muita escuta e leitura: bens e males que convêm a uma poeta urbana.

Pois tenho, não de tábuas corridas ou piso de qualquer modernidade, mas de plantas, meu assoalho. Tijolos de vidro recobrem jardineiras, há calhas laterais para escoamento e as ervas aromáticas dão à fartazana e me alegram o dia, além de temperar os pratos. À noite seu verde reflete a luz que lá está embutida. Lindo, lindo.

Adiante, o chão de terra, com palmeiras e relva. À volta de um riacho que faz uma curva, uma praia delicada. Um bom naco de céu, num canto que o sol já descobriu.

Ah, e um poço profundo, cuja função ainda não descobri. Não serve pra beber, a água: é marinha.

Em certas noites de lua cheia, a lembrar com saudade de combinações nada políticas ou práticas, ao lado dele eu me sento. É onde a luz se esconde. Não a do dia inteiro, tampouco é uma claridade presa, como a do poema do Neruda. Pode sair a qualquer momento, mas gosta de estar comigo. Com os pequenos brilhos que me deixa pescar enfeito os cabelos, quando os penteio. Depois os deixo cair e, assim, tenho um poço de água marinha com fios de luz, no meu quintal.

O vento norte chega morno, à noitinha, percorre a casa e, de entre o coentro e a hortelã, vem a mim. Seca-me os cabelos e perfuma-os. Recebo-o. Escuto-o, mas não compreendo o que assobia. 

 

Sonia Regina

Rio, 30.3.07


[1] Braga, Rubem. Um pé de milho (1948)



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No azul das luzes guardiãs

ao José Antonio Gonçalves [JAG]

in memorian

 

Há quatro anos conheci, no mar, o azul das luzes guardiãs. Foi na tua ilha, onde me guardaste ao me esperares, em silencio, esconder a dor que me saltava dos olhos.

Hesitaste, poeta, e não foram as tuas palavras, senão teu olhar amigo e compassivo, o que me acolheu o receio e o lamento. Foram-se, no café em que nos tornamos naquela manhã, a mover o segredo da morte que se anunciara alheia a nós, mas tão próxima. Até que aquela sombra se foi, ajeitando-se entre as margens sutis do imponderável e somente deixando a lembrança da aflição.

Pensei que estivesse já diluída no oceano quando dois anos depois retornou, na onda vigorosa que te derrubou o corpo. Fiquei muito tempo me perguntando onde estava o azul, naquele momento, e porque não te guardou.

Penso se é nele que está a tua essência, luz guardiã dos que poetam azul por aí.

 

Sonia Regina

Rio, 29.3.07

imagem: My Guardian Lights, Sue Anna Joe


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em cristalino espasmo

 

 

no colo, o marinho cavalo

- antigo personagem

em cristalino espasmo

do mar - não mais navega

ou voa: respira,  sopra

- magia crua -, transforma,

nutre de impurezas

necessárias a aura,

no ar.

 

 

sonia regina

rio, 02.3.07



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um toque, sem tato 

 

 

 

ao que cala, sente, e faz sentir

onde o sol não bate, ou pensa

o coração

 

basta ser e estar, nesse quase feliz

 

como um olhar das pálpebras nuas

vê de perfil e de frente ao mesmo tempo

 

como um rodear profundo que toca

sem tato, intriga o arrepio, não escolhe

objeto nem parte.

 

 

 

sonia regina

rio, 02.3.07



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