no fluir da metonímia: poemas e imagens

  

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no fluir da metonímia

poemas e imagens

além da linha d'água

 

 

 

 

 

                                                                  

        

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 dão-se as mãos e caminham, no mar

 

deixando a alma livre de sentir

o que não lhe é próprio, a eros

tudo é possível quando afrodite,

cronus, yemanjá e netuno dão-se

as mãos e caminham, no mar.

 

 

sonia regina

Paraty, 17.2.07



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libertos, planam no céu do corpo

“o corpo  doeu-me onde antes os teus dedos foram aves  de verão”  - Maria do Rosário Pedreira

 

 

ser ilha e deixar-se levar pela maré

: incongruência de quem é, em Paraty

 

o mar pode ser quente, junto às pedras;

estar é despertar com as correntes frias

do inesperado movimento

 

lufadas - próprias da estação - neutralizam

a dor e curam; os que caminham no tempo

voam, libertos

 

planam no céu do corpo, aves

: migram, no verão.

 

sonia regina

Paraty, 17.2.07



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a medida do espaço necessário

 

os eus que eu guardo calam-se

quando digo à alma que contemple,

para que eu olhe o mundo e sinta

- sem palavras-, deixando a pele

(o céu do corpo) adormecida

 

a ducha espanta a contemplação;

a água quando cai acorda a ausência,

num falatório de pensamentos

 

os choros são sugados pela música

: um basta eficaz, no discurso sem

vírgulas ou pausas

 

e o bolero e Ravel, enfim, dão

a medida do espaço necessário.

 

sonia regina

Paraty, 17.2.07



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para além do sinistro

sem complacência da aflição

que habita o indivíduo,

o espelho reflete laços

que atravessam o afastamento.

 

cúmplice, vai além do sinistro

desenvolvimento do mal:

 

o valor purificador é, enfim, liberto.

 

 

 

sonia regina

Paraty, 17.2.07 (manhã)



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o olhar sensível toca o solo, reverso

 

 

 

 

o olhar sensível não voa: mágico

sopro, acalma os sentidos;

 

toca o solo, reverso, diminui o impulso

do destino que se abate sobre o chão

do romance.

 

dói na tonalidade, desiludida, a liberdade

da cor: independe de gosto, pra ter sabor.

 

 

 

sonia regina

rio, 15.2.07



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Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?


(...)


Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.


(...)


Depois, mas porque é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara?
Porque é que me chamaste para o alto dos montes
Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar?


(...)

 

                                                             Alvaro de Campos
                                                                      15/04/1928

 

imagem: Felix Valloton



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"Na Roma antiga, fevereiro era oficialmente o início da primavera e era o tempo de purificação. As casas eram limpas em um ritual onde depois de varrer a casa, espalhava-se sal e um tipo de trigo pelos cômodos. Então iniciava-se a Lupercalia, em 15 de fevereiro, que era um festival da fertilidade. (...) Mais tarde neste mesmo dia, todas as mulheres jovens colocariam seus nomes em uma grande urna. Os homens solteiros da cidade então tiravam um nome e se formavam os pares para o ano, muitos resultando em casamento."

 

 14 de Fevereiro:   Dia De São Valentim

 

Há palavras que nos beijam

Imagem:   Embrace, Paul Klee



Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.



Alexandre O'Neill



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Haja O Que Houver  - video-music: Madredeus - Cristina Salgueiro

 

15 de Fevereiro: Lupercalia

"Para o meu amor querido, do seu Valentim"

(adaptação de Valentine’s day , de  Luciana Misura - EUA, 14.2.03)

 

“From your Valentine” (do seu Valentim) - A Igreja Católica reconhece ao menos três diferentes santos chamados Valentim, todos mártires. Uma lenda diz que São Valentim era um padre durante o século 3 em Roma. Quando o Imperador Claudius II percebeu que homens solteiros eram melhores soldados do que os que tinham mulher e família, ele decretou que o casamento era ilegal para os homens jovens - seus soldados em potencial. São Valentim, percebendo a injustiça do decreto, continuou realizando os casamentos de jovens casais em segredo. Quando Claudius descobriu o que São Valentim estava fazendo, decretou pena de morte para o padre. Outras histórias sugerem que o santo pode ter sido executado por tentar ajudar os Cristãos a escaparem das prisões romanas, onde eram muitas vezes espancados e torturados.

De acordo com outra lenda, quando prisioneiro ele teria se apaixonado por uma jovem donzela, provavelmente filha de seu carcereiro, que o visitava. Antes de morrer, ele teria escrito uma carta para ela, onde assinou “from your valentine” (do seu Valentim), uma expressão que é utilizada ainda hoje nos cartões nesta data. Esta carta é considerada o primeiro “cartão” de dia dos namorados. Embora ninguém saiba a verdade, as histórias certamente enfatizam o santo como simpático, heróico e principalmente, romântico. Durante a Idade Média, ele foi o santo mais popular na Inglaterra e França.
 

A data, no mundo - Não se restringe apenas a namorados; familiares e amigos também ganham cartões e presentes. O Papa Gelasius declarou 14 de fevereiro como dia de São Valentim por volta de 498 d.C. Durante a Idade Média, o dia 14 de fevereiro era comumente creditado como o inicio da temporada de acasalamento dos pássaros, o que contribuiu para a idéia que esse dia deveria ser associado com romance.

O mais antigo presente de dia dos namorados é um poema escrito em 1415 pelo Duque Charles, de Orleans, para sua esposa, enquanto ele era prisioneiro na Torre de Londres. É parte da coleção de manuscritos da Biblioteca Nacional de Londres. No Reino Unido, o dia começou a se tornar popular no século 17. Na metade do século 18, era comum para amigos e namorados de todas as classes sociais trocarem pequenos presentes e cartas nesta data. Os norte-americanos provavelmente iniciaram sua troca de cartões feitos a mão por volta de 1700. De acordo com a Associação de Cartões dos EUA, aproximadamente um bilhão de cartões são enviados todos os anos neste dia, tornando o dia dos namorados os segundo maior dia em envio de cartões do ano, perdendo apenas para o Natal. data é comemorada em muitos países, incluindo Canadá, México, Reino Unido e França.

Fevereiro: namorados e carnaval - a Lupercalia - Enquanto alguns acreditam que a data é celebrada no meio de fevereiro para lembrar o aniversário da morte ou enterro do santo - o que provavelmente ocorreu em 270 d.C. - outros dizem que a Igreja deve ter decidido celebrar a data em uma tentativa de converter comemorações pagãs realizadas na mesma época. Na Roma antiga, fevereiro era oficialmente o início da primavera e era o tempo de purificação. As casas eram limpas em um ritual onde depois de varrer a casa, espalhava-se sal e um tipo de trigo pelos cômodos. Então iniciava-se a Lupercalia, em 15 de fevereiro, que era um festival da fertilidade, dedicado a Faunus, o deus romano da agricultura, e aos fundadores da cidade, Romulo e Remo. Para iniciar o festival, membros do Luperci, uma ordem de sacerdotes romanos, se encontravam em uma caverna sagrada, que era onde se acreditava que Romulo e Remo teriam sido criados por uma loba. Os sacerdotes então sacrificavam uma cabra, para fertilidade, e um cachorro, para purificação. A cabra era então cortada em pedaços, que eram molhados no seu próprio sangue e um grupo andava pela cidade molhando os campos e as mulheres com o sangue destes pedaços, para trazer fertilidade no próximo ano. Mais tarde neste mesmo dia, todas as mulheres jovens colocariam seus nomes em uma grande urna. Os homens solteiros da cidade então tiravam um nome e se formavam os pares para o ano, muitos resultando em casamento.



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outro idioma

ou

tuas asas não foram cortadas

 

 

 

 

“há palavras que nos beijam
 (...) de esperança louca.”

 

alexandre o'neill

 

 

 

 

vês? tuas asas não foram cortadas

 

sem fome ou sede, com o cheiro

inebriada - “de esperança louca”,

aroma que exala – tua boca fala

 

novo sentido pros lábios;

pra língua, outro idioma.

 

 

 

sonia regina

rio, 12.2.07



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Pórtico



Com os meus amigos aprendi que o que dói às aves
Não é o serem atingidas, mas que,
Uma vez atingidas,
O caçador não repare na sua queda


 

Daniel Faria ,  in   “A casa dos Ceifeiros”


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Outro Rio

 

 

 

Um rio extravasou--me da memória, a que o mantinham preso as forças do passado. Nas suas margens, o meu corpo divide--se entre a História e a atmosfera, tomando assim o peso à realidade que através de todos os meus poros se procura incorporar na marcha dos sentidos. Alguma coisa nele toma por transporte a luz, outra as metáforas que cuidadosamente vou tentando encaminhar para um terreno mais seguro. Um pão aguarda entre os escombros que a solidão venha devorá--lo. Sei que existe algures um espelho onde a imagem do meu rosto incorpora a eternidade, mas os olhos de que por enquanto vou dispondo não me permitem vislumbrá--lo. Parece trepidar a toda a minha volta um mecanismo de que a História fosse o combustível. Da memória abro veredas para as partes do meu corpo mais expostas à devastação das águas.

 

 

Luís Miguel Nava



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Carta (esboço)

Nuno Júdice

 

 

 

 Praia das Maças, Malhoa

 

Lembro-me agora que tenho de marcar um encontro contigo, num sítio em que ambos nos possamos falar de facto, sem que nenhuma das ocorrências da vida venha interferir no que temos para nos dizer.

Muitas vezes me lembrei de que esse sítio podia ser, até, um lugar sem nada de especial, como um canto de café, em frente de um espelho que poderia servir de pretexto para reflectir a alma, a impressão da tarde, o último estertor do dia antes de nos despedirmos, quando é preciso encontrar uma fórmula que disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer.

É que o amor nem sempre é uma palavra de uso, aquela que permite a passagem à comunicação mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale, de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós leve consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio ser, como se uma troca de almas fosse possível neste mundo.

Então, é natural que voltes atrás e me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde, isto é, a porta tinha-se fechado até outro dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem sido pensadas.

No entanto, ao escrever-te para marcar um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que é também a mais absurda, de um sentimento; e, por trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas, que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

                                                                                                                                                                                           



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A dor da separação



Pousada numa âncora, uma gaivota pia.
De súbito, sem uma palavra, a âncora desliza.
Surpreendida, a gaivota levanta vôo.
Em breve, a âncora empalidece na água, afundando-se.
E o que a gaivota sente torna-se um grito bravio, triste,
Perdido no vento.



Maruyama Kaoru (1899-1974)



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Homem transportando cadáver de uma mulher

 



Quis-te tanto que gostei de mim!
Tu eras a que não serás sem mim.
Vivias de eu viver em ti
e mataste a vida que te dei
por não seres como eu te queria.
Eu vivia em ti o que em ti eu via.
E aquela que não será sem mim
tu viste-a como eu
e talvez para ti também
a única mulher que eu vi!



                        José de Almada Negreiros    (1893-1970)



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Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.

 

                                                   Maria do Rosário Pedreira

 

Imgem: Pilar  Ilara



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    Imgem: Stefan Beutler



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Um Prego

 

 

Cravava cuidadosamente um prego na parede, quando pressentiu que, como água dum cano que se rompesse, o futuro poderia jorrar de súbito na cal, uma substância na aparência cristalina mas em cujo seio as formas do presente se diluiriam todas, como se, com os seus contornos, igualmente se perdesse o seu sentido, e um sol se deslocasse, por pouco que fosse, do presente para o futuro, se esvaziasse então no céu, deixando atrás de si uma cicatriz imensa.

 

Luís Miguel Nava



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Ainda os poros, os cheiros e as essências. O
esquecimento na margem de uma janela,
nesta cidade tão inesperadamente meridional.
Uma parcela do teu corpo, uma linha
imperceptível no Tejo em fundo. Nasce uma
desordem e eu só sei oferecer um tremido
retrato da sombra a que me abrigo.

                                                Cecília Barreira

 

essas sombras de que somos feitos

 

 

 

 

essas sombras de que somos feitos

e nem sequer têm nome

são as que andam no rio, à deriva,

rasgando a terra junto com o sol. 

basta um chamado, um grito corrido

sobre a margem, e comparecem .

na pedra, asas partidas, corações

quebrados que caem da memória;

na carne, esculpidas no gelado

no mármore, no sabor, no cheiro;

na cor grená, movem-se com vagar

 

contra o tempo, distância, vergonha

sobre o equívoco, sobre os lamentos,

 

sobre o medo.

 

 

sonia regina

8.2.07

 


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"Como todas as fracturas possíveis, fragmentações...descontinuidades, o poema constrói-se" -  Jos G.

 

CARLA BRUNI  canta Serge Gainsbourg  (La Noyée)

e   Quelqu'Un M'A Dit

 

"On me dit que le destin se moque bien de nous
Qu’il ne nous donne rien et qu’il nous promet tout"

 



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Vem aos meus sonhos,
faz em mim a tua casa.

Planta, em frente, a cerejeira dos
pássaros brancos,
deixa que eles pousem nos ramos e cantem
eternamente,
deixa que nas suas asas de luz eu leia o meu
nome,
antes de os relâmpagos acenderem os prados.

Vem aos meus sonhos,
vê os labirintos por onde me perco,
vê os meus países do mar,
vê, em cada barco que parte do meu coração,
as viagens que não fiz,
os amores que não tive,
a lua cruel da minha solidão.

Vem aos meus sonhos,
traz um fio de água para as dálias do meu
quarto vazio,
não queiras que as suas pétalas sequem muito
depressa,
caindo pelos delicados muros de cristal,
apagando a cor que dava vida aos aposentos do
solitário.

Deixa que ele evoque a secreta doçura das
colmeias,
e vem,
vem aos meus sonhos,
ilumina o meu domingo de cinzas, o meu
domingo de ramos, o meu calvário,

diz que estás aqui,
nesta página que escrevo para nunca te esquecer.
 

                                                      

                                              José Agostinho Baptista



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Fiama Hasse Pais Brandão
 
 

 

Corpos que nascem de formas ou figuras,
belos por serem carne ou pedra.

Corpos que mutuamente se chamam, prendem,
na sua intensa forma. Eles
mesmos amando-se, vivendo-se
um ao outro, com a profunda vida
de ambos, no mesmo tempo.

Imagens de pura carne ou pedra
uma à outra somadas por desejo
no seu desenho penetrando-se,
duplos num único vulto.

                           


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Não te amo mais

' um poeminha para ser lido de cabeça para cima e de cabeça para baixo, que não é de Clarice Lispector '. Leia o artigo Autoria Negada, no Jornal de Poesia

 



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Retrato de um Amor





Iluminas
a sombra dos meus dias
neste mundo que abrimos devagar
entre o corpo e a alma, sempre mais
secretos no abismo que os devora.

Maior do que este amor nada haverá
até ao fim dos tempos: os teus olhos
respondem ao destino, à sua eterna
graça que paira sobre as nossas vidas
agora a transbordarem numa única
razão feita de luz. a tua boca
inunda a minha língua com o sabor
de todos os sentidos que mergulham
a noite numa água sem retorno.

Para ti absorvo o hálito de um verão
em cada beijo cego, surdo e mudo
respirando de súbito em uníssono:
enigma revelado num só frémito,
insónia submersa que , em silêncio,
regressa pouco a pouco aos nossos braços
afogados na espuma do seu mar.

Perto do teu sorriso há uma fonte
embriagada e pura- meu amor,
dá-me esse coração, essa primeira
raiz de todo o fogo, esse relâmpago
onde cresce para nós a flor de um grito;
segreda-me às escuras mais um sonho
antes de adormeceres sobre o meu ombro.



                                Fernando Pinto do Amaral

 

Imgem: L.Blank



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Clique para ver o Video:

Ave Maria (Sarah Brightman)

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 oleiro

       acaricio o vaso

     (...)
     retenho a paciência na costura
     do barro
-
josé félix (fragmento)

 

 

 

 

pousados na carícia,
teus dedos sentem
a argila

rendida,
a cada volta do torno

confia na tua costura;
é a ti que se entrega,
sem reservas

e é em tuas mãos que desperta,
vaso.

 

sonia regina
02.2.07



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Sou apenas uma sombra

 

 

 

 

 

 

Sou apenas uma sombra

à tona da água do dia

Sou apenas a dor

E o queixume do mundo

Sou apenas espinhos

E gritos entre as ruínas

Sou apenas a ferida

Aberta deste tempo

Sou apenas

Uma flauta soprada pelo vento

 

 

 

                           Anne Perrier

 

 

 

 Imagens: E.Brown



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 sorrisos

 

 

 

 

 e, da ponta dos meus dedos

 manchados de ternura,

 a energia alfa, em expansão

 o fogo que não se vê

 

 nos sulcos do meu rosto,

 sorrisos

              enxutos e frescos.

 

 

 

sonia regina

rio, 1.2.07



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Sobre a pintura de um ramo florido "Primavera Precoce", de Wang

 
 
 
 

 

 

Quem disse que a pintura deve parecer-se com a realidade?

Quem o disse vê com olhos de não entendimento

Quem disse que o poema deve ter um tema?

Quem o disse perde a poesia do poema

Pintura e poesia têm o mesmo fim:

Frescura límpida, arte para além da arte

Os pardais de Bain Lun piam no papel

As flores de Zhao Chang palpitam

Porém o que são ao lado destes rolos

Pensamentos-linhas, manchas-espíritos?

Quem teria pensado que um pontinho vermelho

Provocaria o desabrochar da primavera?

 

 

 


Su Dongpo (SuShi)

 

 

imagem: Zhao Chang no século XII - ©Minha China.com



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nos sulcos do meu rosto, sorrisos enxutos e frescos

 
 
 
 

 

 

 

quando toquei-te com a mão direita, e esbarrei na fúria ,
assustou-me aquele ardor, visível

mas não vi a ruga que me marcou a alma, e ignorei o impropério

 

talvez se me tivesse estendido na areia, a conversar com os grãos

que sabem rolar na espuma, talvez tivessem voado com as gaivotas,

meus pensamentos... talvez se tivessem tornado verdes palmeiras ,