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Na ilha por vezes habitada
Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites. Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.
José Saramago,
Provavelmente Alegria |
by SR
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| A palavra que faltou e não virá

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Michel Ducruet |
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Era tarde para expressar meu lamento, quando eu soube do ‘falecimento’ da Meg: já dado como pretenso, foi contribuinte ativo da densidade do final de semana que revolveu parte da intelectualidade brasileira e portuguesa em seus blogs, sites e listas. Em tela, a palavra. Em cena a morte, a doença, a loucura, a farsa, os motivos. Como protagonistas Paulo José Miranda - escritor português residente em São Paulo, vencedor do primeiro Premio José Saramago em 1999 - e Maria Elisa Guimarães (Meg), do Subrosa weblog, professora de Filosofia, crítica e animadora cultural.
Não sei dos motivos ou o que 'encenam' a Meg e o Paulo. Dizer que o conheço pessoalmente é frágil afirmação, embora tenhamos nos encontrado e conversado muito - junto com amigos comuns que nos apresentaram - por duas vezes, em 2006: uma delas num jantar pequeno que lhes ofereci em minha casa. Tampouco a Meg e eu nos conhecíamos pessoalmente: houve um momento – breve -, também no ano passado, em que nos cruzamos e correspondemos por e-mail.
O suficiente para que ela visitasse e indicasse meu blog como um dos seus favoritos; para que o texto de Haroldo Maranhão, postado por ela, fosse por mim publicado no periódico digital Laboratório da Palavra. A parte gostosa da rede, agindo.
Sei que a esses nomes correspondem pessoas reais que não me foram indiferentes, pelo contrário. E que esse turbilhão em que se meteram é a parte não-gostosa da rede. A parte que me invade a casa para contar do que não cogito ou quero partilhar.
Uma farsa, essa morte? Uma encenação, uma performance, um espetáculo que tem causas e produz efeitos nas pessoas e personas, nos mundos virtual, real, imaginário – talvez até no simbólico. E jamais se saberá dos danos - que nunca serão qualificados ou quantificados -, se é a vida “uma fúnebre farsa em que nós – mais ou menos inconscientes – representamos os mais diferentes papéis, pobres marionetes nas mãos do destino cego” [PIRANDELLO]. A citação é de A Dúvida de Pirandello, de Gustavo Bernardo, onde também li:
"Pirandello reduz o leitor a uma série de peças de um mosaico, detonando a noção de unidade. O ser humano que surge a partir dessa detonação é irônico como um desenho cubista. Abandonado pelo destino, percebe a contingência em todas as coisas – mas não se resigna a ela.
Sua liberdade é uma ficção – pois que seja.”
De todos os ditos, o mais aprisionado me parece ser o da protagonista Meg. É dela a palavra que faltou e não virá, porque morreu - sem falecer -, o que lamento. Este, não é tarde para expressar.
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by SR
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