no fluir da metonímia: poemas e imagens

  

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no fluir da metonímia

poemas e imagens

além da linha d'água

 

 

 

 

 

                                                                  

        

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uma linguagem homicida

 

 

 

"que ocupa os sãos a ponto de torná-los tão distraídos?"   Luiz Costa Lima*

 

 

 

uma literatura que confunda a retórica

com a representação social

não finge a vaidade, a ambição

por glória pública

 

da linguagem incapaz de fecundar

a realidade com o que difira

do pesadelo e do absurdo

 

legitima o perverso

 

o significado falsamente circunscrito

[perdido]

na passagem da evocação sonora

que arruína a música antes ouvida

 

ensandecida, a palavra não distraída

confundida pelo despeito e desafeto

 

o Outro poético assassina.

 

 

 

sonia regina, 15.11.06
 

 



by SR
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será, demeter?

 

 

 

 

será que dirás do luto da natureza?

será que, do mundo dos mortos,

virá perséfone para attica

e cessará a dor da terra fértil,

da mãe das estações, da colheita? 
 


sonia regina

rio, 14.11.06

 



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hermes, leva este recado

 

 

 

leva este recado a hades, da sombra

translúcida que sobre a colheita se abate

das flores que brotam, das frutas, do luto

de cada traço, cada vírgula e pausa

do espaço vago coberto de verde.

fala-lhe do submundo, dos meses quartos

das afinidades, ó filho de maia, fala-lhe

do ciclo, do que não se repete se não há eterno

no mundo fora dos deuses.

veste tua sandália com asas, deixa a tinta

do sapato, o fato, o assassinato da natureza.

vem comigo, inspira a mesmice

rasura no chão as certezas

que seja a delicadeza só mais um passo

a poética da diferença na fome de enigmas

não desvendados, no escrito inacabado

a estética possível do cansaço, da continuidade

que se estende no silencio do corpos

rasga a linguagem, o meu ser lunar liberta

deita-o à sombra que hesita na margem

do espetáculo, ama-o obscuro desenho

colore-o sem pressa além da memória

fora do vulgar, num tempo inventado.

 

 

sonia regina

rio, 14.11.06



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hélios, por quê?

 

 

Por que esta exposição à luz?

Ana Cristina Cesar

 

 

 

hélios, que tudo vês, ó deus

dos gregos; ó sol eterno,

deus romano!

 

por que esta exposição à luz , (1)

as certezas rasuradas,

o cansaço da continuidade?

 

na dobradiça do dia deixa-me

livre o ser lunar, o secreto

da obscura linguagem;

 

que narrem o espetáculo a luz

e a sombra, a figura e o fundo

o todo e também as partes;

 

que de uma prosa em pedaços,

de um verbo em retalhos

não vinguem versos

 

que limitem os ares

mares, os territórios

ou os cenários.

 

 

(1) Ana Cristina Cesar

 

 

sonia regina

rio, 14.11.06



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o quente tom do carmim

 




é no íntimo das veias que agoniza
a angústia surda

no sangue, matéria anônima,
desliza pelas profundezas
como um magma sem nome

alargar-lhes a espessura afetiva


no encontro da carne com o tempo,
é o tom quente do carmim.



sonia regina
03.11.06

 
  o tom quente do carmim


 
 
é quando dizer não basta, para o tempo
de um veneno que reluta em se entregar
ao esquecimento, que o carmim se alastra
 
leva a angústia surda do ventre da pedra à asa,
a sensibilidade mitopoiética rompe o núcleo
da palavra contaminada, o afeto escapa
 
o verso maldito sangra
[signo humano e divino]
estanca o caudal de lágrimas
 
a vida não se perde, na cavalgada
 
na memória que pontua o hoje
fluem líquidas, as marcas
 
no leito estreito do rio abre-se a água.
 
 
 
sonia regina
05.11.06



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de um tempo e uma distância não lineares

 

 

não me escondo na trama da minha fábula,

o que narro não é um ato de caridade

: tampouco sou proprietária das minhas representações.

 

simplesmente cobiço que se fixem - e não tardem -

o fervor e o júbilo, a ternura, o colorido

de um tempo e uma distância não lineares.

 

 

sonia regina

rio, 02.11.06

mergulhar na lágrima

 

mergulhar na lágrima

é deixar-se inundar

sem preencher o vazio

  

sonia regina

rio, 02.11.06

nenhuma decepção é inesgotável

 

sou guerreira, mas não quero combater fantasmas,

basta-me atravessá-los

: nenhuma decepção é inesgotável.

 

 

sonia regina

rio, 02.11.06



by SR
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