leva este recado a hades, da sombra
translúcida que sobre a colheita se abate
das flores que brotam, das frutas, do luto
de cada traço, cada vírgula e pausa
do espaço vago coberto de verde.
fala-lhe do submundo, dos meses quartos
das afinidades, ó filho de maia, fala-lhe
do ciclo, do que não se repete se não há eterno
no mundo fora dos deuses.
veste tua sandália com asas, deixa a tinta
do sapato, o fato, o assassinato da natureza.
vem comigo, inspira a mesmice
rasura no chão as certezas
que seja a delicadeza só mais um passo
a poética da diferença na fome de enigmas
não desvendados, no escrito inacabado
a estética possível do cansaço, da continuidade
que se estende no silencio do corpos
rasga a linguagem, o meu ser lunar liberta
deita-o à sombra que hesita na margem
do espetáculo, ama-o obscuro desenho
colore-o sem pressa além da memória
fora do vulgar, num tempo inventado.
sonia regina
rio, 14.11.06