no fluir da metonímia: poemas e imagens

  

          online

       

no fluir da metonímia

poemas e imagens

além da linha d'água

 

 

 

 

 

                                                                  

        

 I site 'um poema' I posts anteriores I

                                                                                          

 

         
 

 

 

 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

 

 

eterno retorno V (não há pressa no vento)

 


 

talvez porque estranhamente colora o cenário
viajar no insólito, colhendo a paisagem inteira


dia e noite

todo o tempo

ontem, hoje ou amanhã

 

não há pressa, o vento sopra

em várias direções 

e íntegro retorna, eternamente ar

 

como o mar que avança, onda

para além da ressaca

 

sem qualquer previsibilidade.

 

sonia regina

rio, 29.9.06

 

 

 

imagem: Demarquet Geoffroy

 

 

 

eterno retorno IV (é setembro: as sementes caem na terra)

 



ouvimos trombetas, do nada sentimos com os anjos
a pulsação do verbo nas veias, palavra terna e breve


: mas não aprendemos o trinado dos pássaros.


saí do teu colo, confiei no mar pra lá do areal, além
do pó a espera não era uma esperança vazia.


hoje eternizo o olhar que retorna na visão do salto


busco no invisível azul um deus pequeno, revigorado
nas raízes de uma árvore seca, nas linhas firmes
dos lábios a boca aberta, na abertura da fome


é setembro, as sementes caem na terra

 

realizam a nutrição num ciclo natural,

na medida justa do cultivo.

 

sonia regina

rio, 24.9.06



by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

 

 

 

antes a brisa

 

 

“Escrevo-te enquanto algo resvala, acaricia, foge
 e eu procuro tocar-te com as sílabas do repouso
 como se tocasse o vento ou só um pássaro ou uma folha.” 
Ramos Rosa

 

 

 

 

não é a ventania que acolhe a tua escrita

enquanto algo resvala, acaricia, foge;

antes a brisa, que recebe as sílabas, página,

ou pássaro, escreve em minha pele, já vento,

do sopro dos teu dedos em meus lábios

como penas dando o sentido da felicidade

ao meu corpo, no movimento do lume

[a paciência do amor em ondulação suave]

o toque roçando o fundo aberto da palavra

o centro, que cintila branco

[em nós]

dentro, onde pulsa o sol.

 

 

 

sonia regina

26.9.06

 

 

imagem: Demarquet Geoffroy



by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

 

 

pelos dedos, como penas

 
 

“sofres de não saber

o que tens e falta

num lugar que nem sabes,

mas que é tua vida,

quem sabe é teu amor.

O que tu tens, não tens.” Thiago de Mello

 
 

 

 

ama o amor.  seja qual for o diabo

(ou o deus), olha-o nos olhos

conhece o prazer que lhe dá prazer

aprende do lume que ensina ao corpo

a difícil arte do abandono das palavras

 

atravessa com ela os resíduos

 

o desejo que começa na mente, deixa

que escape pelos dedos, como penas.

 

 

 

sonia regina

rio, 25.9.06



by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

 

encontro-te

 

encontro-te no tremor da madrugada esperando a manhã

quando nada mais haja no rumor na escuridão senão o som

de nossos gestos no esvoaçar ritmado das sombras

 

a paixão revelada no sorriso entre os lábios.

 

sonia regina

rio, 23.9.06

 

imagem: Demarquet Geoffroy



by SR
[
] [ enviar post ]

 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

   

 

sol derramado perfumando o medo

 

 

 

 

 

afundo no movimento do poema, na quietude

apaixonada da palavra que se solta da página

 

como dizer-te da hora em que caminha o ardor

da minha fragilidade? ouço teu beijo convocar

meu hálito à segurança do teu peito, água ágil

a me inundar o corpo de sonhos refeitos

 

e se aceito a flor da cortesia que me ofereces

é porque em minhas veias em segredo flui

teu cheiro, sol derramado perfumando o medo.

 

 

 

sonia regina

rio, 22.9.06

 

 

 

imagem:  Shirin Neshat

 


by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br
 

   
 

Ferreira Gullar

 

"Como sugeriu Mallarmé, o poema é um lance de dados que jamais eliminará o acaso.

E digo mais: o poema não é a expressão do que se viveu ou experimentou. Se eu sinto um cheiro de jasmim na noite e escrevo um poema sobre esse fato, o que faço não é expressar tal experiência, mas, na verdade, usá-la como impulso para inventar uma coisa que não existia antes: o poema, o qual se somará a todas as galáxias, planetas, cometas, oceanos e tudo o mais que exista no universo. E o universo será, a partir de então, tudo o que já era mais aquele pequeno agregado de palavras, nascido de um perfume."

   
 

Fragmento de E o cronista endoidou... 

Fonte: Folha Ilustrada - 19.06.2005  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1906200521.htm



by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

 

 

 

Henri Matisse, Jazz IX, 1949

 

 

eterno retorno III (retorno nas sombras em que sou movimento)

 

 

 

“ É o vento quem me guia, a luz me orienta, as sombras o que me move”

Henrique Fialho *

 

 

 

e é nesses momentos

em que sou o que sou, sem alarde

cautela ou qualquer bagagem

serenidade solta, simplesmente

suave

como o vento que faz a curva

depois de ser tempestade

é em alturas como essa, em que nada sou

 

que retorno

 

nas sombras em que sou movimento 

individualidade, ser inteiro e parte

como a folha, quando regressa à  árvore

a gota que é mar e rio

 

como a tarde que foi manhã

e o crepúsculo que ainda é dia

diferem só na claridade.

 

 

 

sonia regina

rio, 20.9.06

 

 

 

* (fragmento de Tese, in Ensaio sobre o banal – na revista Minguante)



by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

 

eterno retorno II (o sorriso de sísifo)

 

Assim, convencido da origem totalmente humana de tudo o que é humano, o homem cego, ansioso para ver, que sabe que a noite não tem fim, este homem permanece em movimento. A rocha ainda está rolando. (...) A própria luta em direção às alturas é suficiente para preencher o coração de um homem. Deve-se imaginar Sísifo feliz.

Albert Camus. O Mito de Sísifo

 

gira o mundo, a memória testemunha e

sela o sopro das fronteiras, na saudade

passa o tempo, ultrapassa o espaço

e continuamos mergulhando no som

dos pássaros.  sempre o mesmo sonho

[na oração possível]

acalenta a alma anestesiada no corpo

se a poesia diz do infinito com palavras

que não se derrotam e nascem

 

de um sorriso.

 

sonia regina

rio, 14-19.9.06



by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

 


Um corpo, certamente. Mas que é um corpo?
Boca, seios, coxas, sexo,
um sorriso, a mão que afaga, voz?
Que trevas, quais trevas,
de esquecer ou ir tão fundo
quando o desprender-se da alma abre
nas portas da luxúria os céus em fogo?



Adolfo Casais Monteiro,  Céus em fogo   in Eros de passagem, 1982.



by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

 

a chuva, o ciclo

 

 

 

 

mira o pão

desde o cultivo

o trigo, a terra, a mão

a chuva

o ciclo

 

essa tristeza, mira

desde o princípio

o amor, a dor, a mão

a chuva

o ciclo

 

 

 

sonia regina

rio, 18.9.06

 



by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

 

embrenhadas em desapontamentos

 

 

 

quando falei contigo pela última vez

 - e pela primeira você nada disse -

do teu olhar assustado a morte me fitava,

crua e nua me enfrentava

 

sustentei aquele embate silencioso

sem lágrimas, coragem ou docilidade

 

debulhei-me em palavras e cobri teu coração cansado,

que se despedia do movimento

 

ontem, na carta de um livro sobre o tempo

encerrado nas datas, tu me agasalhaste

 

perguntas que ainda me vêm, embrenhadas em desapontamentos,

e me acordam a delicadeza, numa dádiva sem lágrimas

eu as respondo, sem economia de palavras

 

: penso que reaprendi a gastar o amor.

 

 

sonia regina

rio, 17.10.06

 



by SR
[
] [ enviar post ]

 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

 

O olhar de Shakespeare

 

 

"Meus olhos, só pela visão dos seus,
Pingam de amor. O encanto se dissolve;
E como a aurora surpreende a noite
Derretendo o negror, os seus sentidos
Renascem e começam a banir
A névoa de ignorância que ora encobre
A razão clara. "


( Shakespeare. A Tempestade. Ato 5, Cena 1)

 

 

 

olho demoradamente para ver se escuto

o que me diz essa madeira que já não guarda,

sequer, a cor da árvore

 

nada ouço

nenhum pingo

 

apenas sinto um leve vibrar se a toco,

como se lhe tivessem arrancado as cordas vocais

 

uma porta na parede branca, aberta

máscaras de várias partes do mundo

nenhum rosto

 

 

 

sonia regina

rio, 17.9.06



by SR
[
] [ enviar post ]

 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

 

à volta, na qual ninguém se perde

“Ninguém se perde na volta”  -   Antonio Adriano de Medeiros

 

em meio ao tudo e ao nada, a prosa

num não à nostalgia, os vivas

à volta, na qual ninguém se perde

e à poesia... que fica.

 

sonia regina

rio, 14.9.06



by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

 

 

 sodade

 

 

afetos entre estilhaços de vidro, no chão

o deleite, a vida que se esparrama num

rumor que não se esconde da inquietude

 

 sodade,  “perdi la luz de tu recuerdo"     [1]

 

chove no tempo em que misturava sexo

com amor, camões acendia  meu ar

e eu tentava abraçar o mundo

com um coquetel molotov

 

hoje o sol me tocou antes do sereno

e me arrancou um sorriso

 

como o olho que vê o que vê"     [2]

no leito o corpo cansado, parado

 

nu, sem coisa nenhuma.

 

 

sonia regina

rio, 13.9.06

 


 

[1] Pilar Ilara

[2] Paul Valéry



by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

 

 

eterno retorno (I)

 

 

escolho a casa no terreno nu, há uma clareira
e a horas de véspera a primavera sonha
na sombra a paisagem rara da música azul.
nem longe nem perto o substantivo

                                                           singular,
comum, põe em dúvida o Deus que acendeu
                              o verão no cantar das aves
em eterno retorno ao sul. chove a insuperável
verdade na travessia de montes e vales

                           : cais no rio pro grito do mar.



sonia regina
rio, 9.9.06


 


a horas de véspera - Pero Vaz de Caminha narra: "Neste mesmo dia, a horas de véspera (período de entre 15h e o pôr do sol), houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, mui alto e redondo, e de outras serras mais baixas ao sul dele"



by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

 

O TEMPO DE UM LIVRO

 

1.

 

Meu querido,

 

Gira o mundo, a memória testemunha e sela o sopro das fronteiras, na saudade. Dez anos! Passa o tempo, ultrapassa o espaço, e por aqui continuamos mergulhando no som dos pássaros.  Sempre o mesmo sono sem orações possíveis para acalentar a alma anestesiada no corpo, se a poesia diz do infinito com palavras que se derrotam ao nascer de um sorriso iníquo e injusto.

Talvez seja um despropósito tardio acordar da delicadeza com percepção tamanha, na intensidade de dores e prazeres. Lembro-me de uma pergunta embrenhada num desapontamento acerca de assim ter podido vir a ser. Por resposta, um gesto e uma expressão. Aos quais retorqui com um “e assim mesmo me ensinou a crer?” ao qual obtive novo sim, num meneio simples e terno da cabeça.  O paradoxo dessa lição só hoje eu apreendo, e fico sem saber o quê e onde rezar, se o céu habita casas abandonadas e nos templos há vendilhões. Jesus não tem mais o chicote, embora reste a solenidade do seu dito “sede prudente como a serpente e simples como a pomba”.

Teclo na mesa as canções que guardei de ouvido e a música ecoa do piano que não mais tenho. Indolente suavidade em brasa, depois de tanto fogo. Ágil, depois de tanta contração. Vil, depois de tanta pureza. Pecadora da vida, da paz, da harmonia. E o que me diz o seu canto é que, para além da cauda de prêmios e louvores tocados pelo sol num escrito, numa leitura, há uma estesia que, propriamente sendo, ao sabor do vento anuncia o conviver com as diferenças e o acreditar no sublime, o que não é menos árduo ou mais suave.

Um encontro breve e intenso, jamais diluído em tantos anos perdidos. Honestamente compartilhamos. Ousamos o afeto e muitos dirão que deliramos, que tivemos ideais ultrapassados, que carregamos bandeiras inglórias.

Nunca mais voltei à tua janela em frente ao mar, mas nele já não se vê os barcos. Continuo, entretanto, a buscá-los no horizonte e com cuidado e atenta observo a minha bondade, fica tranqüilo.  Rezo um pai-nosso para ti e o credo para mim - do meu jeito -, acreditando que já imprima em cada passo uma expressão das minhas impressões sem queimar os pés. E mesmo que por vezes me liquefaça no dizer do silêncio dos corpos interiores, celebro ainda o olhar que, de maneira fraternal e amorosa, me fale do mistério da vida e do ofertório possível na pedra fria de um altar que já não se presta a libações em qualquer capela.

Pouco sei da gazela que se contentava em correr pelas matas atrás de um abraço do vento e esta é a minha atual oração: um elogio à loucura que comete poesias, que se encontra - corajosa e humildemente - com a palavra e a imagem, numa sagração que enlaça e tece testemunhos, desejos, presenças.

Como a tua, dentro de mim.

 

Sonia Regina

Rio, 9.9.06



by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

   

    

Life  -  Adonis Werther
 
 
    não te prometo um jardim de rosas  *

    

 

  não te prometo um jardim de rosas, ou te peço

  que deixes a pipa, teus brinquedos de menino

  tuas fantasias.  nelas entro, com as minhas.

 

  são tantos os sonhos, amor

  e é tão curta a vida.

 

 

  sonia regina

  rio, 6.9.06

   
 

* Nunca lhe Prometi um Jardim de Rosas. Coleção Romance e Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

   


by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

 

 

 

Algo existe

 

 

 

Emily Dickinson
Tradução de Lucia Olinto

 

 

 

 

 

Algo existe num dia de verão,
No lento apagar de suas chamas,
Que me impele a ser solene.
 

Algo, num meio-dia de verão,
Uma fundura - um azul - uma fragrância,
Que o êxtase transcende.
 

Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante e arrebatador
Que só para ver aplaudo -
 

E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trêmulo

E sutil, de mim se escape.

 

 

 


 

 


75 Poemas de Emily Dickinson.  Sette Letras, 1999

Verão na Praia do Leblon, Rio de Janeiro - Hoje, Ontem, Amanhã 



by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

poemas daqui e de acolá - edição 21.8.06    



by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

 

 

 

trilhar

 

 

em linha reta caminhar sem olhar para o lado

 

como um cavalo seguir, sem mirar a parelha

: livre – interiormente - pra avançar.

 

 

sonia regina

4.9.06

 


by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

 

 

 

esse passo que escrevo

 

 

esse passo que escrevo, assim "solene" *, me comove.

 

" Receando que um encanto assim tão trêmulo
E sutil, de mim se escape " *

 

choro.

 

 

sonia regina

rio, 03.9.06

 

 

 

 * Emily Dickinson

                                              


by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

   
 Paulo Leminski Filho

 

 

Um deus também é o vento
Só se vê nos seus efeitos
Árvores em pânico
Bandeiras
Água trêmula
Navios a zarpar.

Me ensina
A sofrer sem ser visto
A gozar em silêncio
O meu próprio passar
Nunca duas vezes
No mesmo lugar

A este deus
Que levanta poeira dos caminhos
Os levando a voar
Consagro este suspiro

Nele cresça
Até virar vendaval



by SR
[ enviar post ]


 http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra   -      e-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

Torquato Neto
   

Cogito

 

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.

  Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher
Louvo a paz pra haver na terra
Louvo o amor que espanta a guerra
Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver
Louvo a luta repetida
A vida pra não morrer

Vou fazendo a louvação...
De todos peço atenção
Atenção, atenção
Falo de peito lavado
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado
Louvo a casa onde se mora
De junto da companheira
Louvo o jardim que se planta
Pra ver crescer a roseira
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera
Louvo quem canta e não canta
Porque não sabe cantar
Mas que cantará na certa
Quando enfim se apresentar
O dia certo e preciso
De toda a gente cantar

E assim fiz a louvação
Louvação, louvação
Do que vi pra ser louvado
Ser louvado, ser louvado

Se me ouviram com atenção
Atenção, atenção
Saberão se estive errado
Louvando o que bem merece
Deixando o ruim de lado
 

 

Louvação

 

Gilberto Gil e Torquato Neto