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da chávena branca de sintra
o leite segue os lábios,
a sede
da chávena branca de sintra
me espia
o nome, branco
como a parede que não viste.
sonia regina
rio, 31.8.06
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| O amor no éter
Adélia Prado

Há dentro de mim uma paisagem entre meio-dia e duas horas da tarde. Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água, entram e não neste lugar de memória, uma lagoa rasa com caniço na margem. Habito nele, quando os desejos do corpo, a metafísica, exclamam: como és bonito! Quero escrever-te até encontrar onde segregas tanto sentimento. Pensas em mim, teu meio-riso secreto atravessa mar e montanha, me sobressalta em arrepios, o amor sobre o natural. O corpo é leve como a alma, os minerais voam como borboletas. Tudo deste lugar entre meio-dia e duas horas da tarde.
in Poesia reunida, Editora Siciliano, 1991 - S.Paulo, Brasil |
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| Herberto Helder |
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A solidão de uma palavra. Uma colina quando a espuma salta contra o mês de maio escrito. A mão que o escreve agora. Até cada coisa mergulhar no seu baptismo. Até que essa palavra se transmude em nome e pouse, pelo sopro, no centro de como corres cheio de luz selvagem, como se levasses uma faixa de água entre o coração e o umbigo. |
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Última Ciência. Lisboa: Assírio & Alvim, 1988. | |
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Johnn Brill |
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(Peninsulares.Literatura 30)- Poesia portuguesa - séc.20 | |
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Portrait, Johnn Brill |
Sou um lugar carregado de cactos junto à água, lua, os animais com um clarão na boca, sou uma ciência a sangue. O sítio ainda agora no cérebro: jarro de vidro cheio de leite, o sal. Estes elementos arcaicos - e as mulheres sombrias cantando. Sou um lugar que transborda. Espancaram a luz atrás das costas: de onde eu vinha, criança branca do mundo. Defronte os fogos lavravam-me a testa. Podia dançar sobre as áscuas. Podia ser tão silvestre entre as folhagens do ouro, ter cornos, negra máscara aterradora, silvar como uma cobra. Eu entrava na morte, era o filho da estrela bárbara - erguia-a do meio dos diamantes. De equinócio a solstício abraçava-me uma onda quando subia, quando se despenhava eu dormia dentro como um olho de água. Depois o rosto obscuro. Depois a seda fiada atrás do rosto. Não espero nada. Espero o dom apenas de uma imagem.
Herberto Helder, in Última Ciência |
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" O samba é a tristeza que balança e a tristeza tem sempre 1 esperança de um dia não ser mais triste não" |
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Samba da Benção ( Canta Vinícius de Moraes )
Vinicius de Moraes e Baden Powell
É melhor ser alegre que ser triste Alegria é a melhor coisa que existe É assim como a luz no coração Mas pra fazer um samba com beleza É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza Senão não se faz um samba, não
Senão... é como amar uma mulher só linda. E daí? Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza. Qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora. Qualquer coisa que sente saudade. Um molejo de amor machucado. Uma beleza... que vem da tristeza de se saber mulher. Feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e para ser só perdão...
Fazer samba não é contar piada Quem faz samba assim não é de nada O bom samba é uma forma de oração Porque o samba é a tristeza que balança E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança De um dia não ser mais triste não...
Feito essa gente que anda por aí, brincando com a vida... Cuidado, companheiro! A vida é pra valer. E não se engane não, tem uma só. Duas mesmo que é bom ninguém vai me dizer que tem sem provar muito bem provado, com certidão passada em cartório do céu e assinado embaixo: Deus. E com firma reconhecida! A vida não é de brincadeira, amigo. A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida... Há sempre uma mulher à sua espera, com os olhos cheios de carinho e as mãos cheias de perdão... Ponha um pouco de amor na sua vida, como no seu samba.
Ponha um pouco de amor numa cadência E vai ver que ninguém no mundo vence A beleza que tem um samba não Porque o samba nasceu lá na Bahia E se hoje ele é branco na poesia Se hoje ele é branco na poesia Ele é negro demais no coração
Eu, por exemplo, o capitão do mato Vinícius de Moraes / Poeta e diplomata / O branco mais preto do Brasil / Na linha direta de Xangô, Saravá! / A bênção, Senhora, a maior Ialorixá da Bahia, terra de Caymmi e João Gilberto / A bênção, Pixinguinha, tu que choraste na flauta todas as minhas mágoas de amor / A bênção, Sinhô / A bênção, Cartola / A bênção, Ismael Silva / Sua bênção, Heitor dos Prazeres / A bênção, Nelson Cavaquinho / A bênção, Geraldo Pereira / A bênção, meu bom Cyro Monteiro, você sobrinho de Nonô / A bênção, Noel / Sua benção, Ary / A bênção todos os grandes sambistas do meu Brasil branco, preto, mulato, lindo como a pele macia de Oxum / A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim, parceiro e amigo querido, que já viajaste tantas canções comigo, e ainda há tantas a viajar / A bênção Carlinhos Lyra, parceirinho 100%, você que une a ação ao sentimento e ao pensamento... A bênção / A bênção, Baden Powell, amigo novo, parceiro novo, que fizeste este samba comigo...A bênção, amigo / A bênção, maestro Moacir Santos, que não és um só, és tantos, tantos como o meu Brasil de Todos os Santos, inclusive meu São Sebastião / Saravá! / A bênção, que eu vou partir...Eu vou ter que dizer adeus.
Ponha um pouco de amor numa cadência E vai ver que ninguém no mundo vence A beleza que tem um samba não Porque o samba nasceu lá na Bahia E se hoje ele é branco na poesia Se hoje ele é branco na poesia Ele é negro demais no coração... |
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Tocando em Frente
Almir Sater/Renato Teixeira

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Ando devagar porque já tive pressa E levo este sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte Mais feliz, quem sabe? Só levo a certeza de que muito pouco eu sei Eu nada sei
Conhecer as manhas e as manhãs O sabor das massas E das maçãs É preciso amor pra poder pulsar É preciso paz pra poder sorrir É preciso a chuva para florir
Penso que cumprir a vida seja simplesmente Compreender a marcha E ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada Eu vou tocando os dias pela longa estrada Eu vou Estrada eu sou
Conhecer as manhas e as manhãs ...
Todo mundo ama, um dia Todo mundo chora Um dia a gente chega Um outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história E cada ser em si carrega o dom de ser capaz De ser feliz...
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corda, não cardo
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“ the time is out of joint!” *
Hamlet |
o coração, como o violino, acorda no movimento
relacionado ao tempo que o condiciona, é som
que vibra, cavalga nos instantes que não mede
agudo, estridente, aveludado, morno
da crina do cavalo - melada de breu - ao corpo,
pela alma solta-se do arco: é corda, não cardo
é porta fora dos gonzos
: abre-se
após fricção.
sonia regina
rio, 27.8.06
* "a porta fora de seus gonzos".
Os gonzos são o eixo em torno do qual a porta gira. Cardo, em latim. Corda; coração.
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Glossário dos termos musicais:
crina - esticada sobre o arco, pode ser sintética ou de crina de cavalo (melhor som).
breu – cera passada sobre as crinas que, ao friccionarem as cordas, geram o som.
alma - cilindro de madeira no corpo do violino, faz com que o som vibre por todo ele. | |
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poemas daqui e de acolá - edição 21.8.06 |
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um brinde em Barra do Corumbê
da taça me olha
o vinho, alentejano
viaja, cresce na barca
na mão do pescador
o sussurro do mar
sonia regina | |
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Vem (Além de toda a solidão)
Música e Letra: Pedro Ayres Magalhães
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Despedimento
Ao JAG

I
Disseram que estou em paz e o dia vai bem.
A tarde segue a reboque da manhã, a angústia
à frente do esquecimento.
Os desenhos que omito, não volto para cortá-los.
A lembrança expulsa o sono e explode a dor
no travesseiro. Talvez se devesse cercar os leitos
com almofadas, barricadas eficazes contra o frio.
No meu país não há alfinetes de segurança
para prender cobertas ou internet nos computadores
da biblioteca municipal. Nem comboios às sete,
que levem o amor em campanha pelos trilhos.
Há letras esparsas, no meu país.
Portugal, para além do oceano de palavras
avança pelo Atlântico, madeira que se faz ilha
e porto santo é uma foto
e um voto do amigo morto.
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II
A escritura bloqueia o anonimato, citações
sem aspas perdem-se: arrefece a força do texto
que não se presta a enxugamentos e cresce,
na proporção direta de um dia que se completa
como reservatório que enche, sem válvula de escape.
Nenhuma distração faz esquecer aniversários
que se comemoram nos últimos dias de cada mês.
Na Lapa a história do Portugal vindo e ido brilha
amarela nos sobrados restaurados:
não há fado; o samba invade a rua,
passarela de pessoas sem rumo certo.

sonia regina
rio, 30.7.06 |
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