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O pássaro é denso mas crispado e tem angústias, medos. Aprendeu a sabedoria de pôr-se a jusante das alamedas e do turvo chão, testemunha das planuras, pouquidões humanas.
Há pássaros óbvios. Outros habitam o peito dos mares e aí parecem-se a peixes e a algas que erram. Os pássaros não deixam tocar-se porque são nus e anunciadores. Raro desfazerem-se das sedas de que são articulados: ponto a ponto. Os pássaros são orgíacos, substantivos, a despeito de seu desarvoramento.
Pássaros são feitos de gritos monossilábicos e pulsam pautados: cascos partindo-se no ar. São o silêncio das claras de ovo, o modo de ser da marcha resolvida dos alados.
Os pássaros expõem-se denodados mas de perfil. Irrompem nas desferidas asas ou as colam ao corpo - depositário das deliberações que exacerbam os arcos, que se dão sempre e quebram-se.
Texto de Haroldo Maranhão, especial para Maria Elisa (Meg) Guimaraes, em 1993 | |
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extraído do SubRosa - post de 15.7.06, homenagem no segundo aniversário de sua morte - com autorização da Meg - Maria Elisa Guimarães, a quem agradeço comovida e dediquei a edição do laboratório da palavra deste 31.7.06, com som fundo de Fernando Sor: Poemas Daqui e de Acolá.
sonia regina [soreg] | | |
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Na Lapa, tristeza sem fado
Para Regina Koeller e minha mãe, que me instigam a prosa
Disseram que está em paz e o dia vai bem. A tarde segue a reboque da manhã. A angústia à frente do esquecimento, destronando a atenção do que sabe de cor. Os desenhos que omite, não volta para cortá-los.
Segue num tempo dado de graça; não há pedágio nesse trecho da estrada em que caminham de mãos dadas o criador e a criatura, o algoz e a vítima, a vida que se candidata e a morte que pericia. Não sabe do veto ou da concessão no instante em que se esquece de todo o conhecimento para testar a habilidade específica. Médio é resultado incompatível com o exercício e não diferencia a ansiedade depressiva da hipomania. Papéis, carimbos e assinaturas nada dizem da lembrança que expulsa o sono e explode a dor no travesseiro.
"Talvez devessem cercar os leitos com almofadas que fossem barricadas eficazes contra o frio de inverno", pensa. "No meu país não há à venda alfinetes de segurança para prender as cobertas nem internet nos computadores da biblioteca municipal, não há comboios às sete que levem o amor em campanha pelos trilhos."
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Nem fiambre há, no seu país. Carrega outro nome, em letras esparsas. Carrega Portugal que, para além do oceano de palavras, avança pelo Atlântico: ilha, foto e voto do amigo morto.
A escritura pára e bloqueia o anonimato. Citações sem aspas perdem-se. Arrefece a força do texto que não se presta a enxugamentos e cresce, na proporção direta de um dia que se completa como um reservatório que enche sem válvula de escape. Escreveu sobre o esquecimento e escapuliu, o seu poema. Talvez uma distração o tenha soltado da página, embora nenhuma a faça esquecer aniversários que se comemoram nos últimos dias de cada mês.
Na Lapa, dança triste a história do Portugal vindo e ido, que ainda brilha amarela nos sobrados coloniais restaurados. Mas neles não há fado: é o samba que invade a rua, passarela de pessoas sem rumo certo.
sonia regina - rio, 30.7.06 | |
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Para Newton Campos; Ramos Rosa (cujos versos* iniciam cada uma das partes); Nuno Branco; Roberto Oliveira; José Gil e José Felix. |
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Entre a pena e o papiro

I
“Vi-te subir” * à fonte.
Brotava ela do sopé da colina
[imóvel na perplexidade, líquida
inexperiência frente ao abismo];
exaltava o poder que lhe conferia
o vento que sopra em todas as direções,
por distração e deleite.
* "vi-te subir".
as águas separam-se das águas.
o meu alento era um puro elixir.
tu davas-me os passos com que caminhava para ti.
ligeiro, tão ligeiro entre os trepidantes cascos"
Leveza, Ramos Rosa |
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II
“As águas separam-se das águas.” *
O poema sedento de sentido queimou como o capim
no alto da colina - claridade intensa e breve,
sem o vento que revirava as páginas. Seguiu, fogo
à procura de combustível nas letras que escrevessem
a madeira que o alimenta e torna chama expandida
além de si: à qual enfim aderisse, leve e suave. |
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III
“O meu alento era um puro elixir.” *
à espera da chuva que purifica o ar,
sem mais silencio via o poema brotar
como o trovão que agita as águas
que o seguem, em ondas que brilham.
* Ramos Rosa |
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IV
“Tu davas-me os passos com que caminhava para ti” *
o poema que procuravas por sobre a nascente
tornada poço, água estagnada que, por não fluir
contínua e gradualmente, deixou de preencher
os espaços vazios e o silêncio “ligeiro,
tão ligeiro entre os trepidantes cascos”. *
* Ramos Rosa
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foto copiada do site http://poetrycafe.weblog.com.pt/arquivo/235967.html
V
Guardo-o hoje comigo, entre a “pena e o papiro” [1],
“fresco como um pé marcado na areia molhada.
Em cada pedaço que escreve são mil histórias que conta” [2].
sonia regina
rio, 25.7.06
[ 1] Roberto Oliveira, editor atual de O Dono da Loja (criado por Fernando Oliveira) e O Mundo Poeta
[2] Nuno Branco, editor do Poetry Café, na publicação e comentários do meu poema Nem poeta nem sujeito |
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pela leveza e empatia *
(um poema sobre a paz no líbano)
é, não se sabe por onde andará o amor
se o relâmpago nestes dias não cavalga
só trovões, avança pelo céu em comoção
extrema e escreve com lágrimas o mistério
do repouso do sol.
o escrito não é mais aquilo que ilumina
e alegra a escuridão, não mais atravessa
o silêncio cúmplice do horror que estende
a noite sobre o diálogo.
emudece a ternura do olhar - encerrada
nos muros da mente e do coração -,
a intolerância é a cegueira que guia.
e eu, que viajo nas asas do falcão
sem rédeas além de um fio de palavras,
teço com elas versos que - se poema -
não provocam nem incitam a poeisis
para que se desenhe mais
que a morte nas sílabas
para que se refaça a escritura
e o amor sobreviva
para que não morra a leveza e a empatia
no fazer das grandes coisas da vida.
sonia regina
rio, 23.7.06 |
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* incluído no poema coletivo ENTRECAMPOS de 29.7.06 - ENCONTROS DE ESCRITAS, grupo de discussão e criação literária.
Tema: LEVEZA , a partir do fragmento do poema de António Ramos Rosa "LEVEZA" |
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leveza*
II
E o obscuro é dissolvido pelo luminoso,
embora tenha-se cavalgado com excesso
de energia ao abrir o livro, numa ação
corretiva da escrita passada.
O falcão voa das páginas, sem nomear
o que se deteriorou. Atravessa a grande água,
num novo caminho avança sem retrocessos,
com decisão e energia corrige a indiferença
e a inércia das palavras que negligenciaram
e fizeram uso abusivo da liberdade do verbo.
Trabalha no tempo da delicadeza;
no vento que, com suavidade penetrante
como a madeira em suas raízes,
invade a alma de leveza.
Não mais sopra na base da colina
de onde retornava violento, rechaçado,
danificando a vegetação.
Na possibilidade da fratura da paisagem
a implícita reunião das águas, da luz e da sombra;
na retomada do nome da mãe a areia exubera
- também Gaia - leve serenidade de ser
no trabalho que tranquiliza e nutre.
sonia regina
rio, 22.7.06 |
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* incluído no poema coletivo ENTRECAMPOS de 29.7.06 - ENCONTROS DE ESCRITAS, grupo de discussão e criação literária.
Tema: LEVEZA , a partir do fragmento do poema de António Ramos Rosa "LEVEZA" |
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20 DE JULHO - DIA MUNDIAL DO AMIGO
" Os amigos são os anjos que nos levantam os pés quando nossas asas têm dificuldades para se lembrar como voar" - autor desconhecido
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Canção da América
Fernando Brant e Milton Nascimento
Amigo é coisa para se guardar Debaixo de sete chaves, Dentro do coração, assim falava a canção que na América ouvi, mas quem cantava chorou ao ver o seu amigo partir, mas quem ficou, no pensamento voou, o seu canto que o outro lembrou E quem voou no pensamento ficou, uma lembrança que o outro cantou. Amigo é coisa para se guardar No lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a distância digam não, mesmo esquecendo a canção. O que importa é ouvir a voz que vem do coração. Seja o que vier, venha o que vier Qualquer dia amigo eu volto pra te encontrar Qualquer dia amigo, a gente vai se encontrar |

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imagem: Allan Richarrd Maxwell
som: Canção da América | |
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leveza *

I
cavalgo o dorso do mundo no tempo
que passa, deito no sussurro da relva
e lhe percebo os sentidos que correm
em cada fruto.
dos lábios a arte penetra a manhã
e dela se apoderam as mãos, levemente.
num movimento fabuloso a palavra pousa
e é poesia, magia que dá vida à pedra,
sonho das águas que não dormem.
basta um toque que as instigue
ao ponto de vôo e lá se vão elas,
desenhando os passos do caminho
nas ondas que tremulam, entregues
ao espanto da língua, ao arrepio do beijo,
candeias de uma escuridão tornada sol.
sonia regina
rio, 16.7.06 |
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* incluído no poema coletivo ENTRECAMPOS-LEVEZA de 29.7.06 - ENCONTROS DE ESCRITAS, grupo de discussão e criação literária, a partir do fragmento do poema de António Ramos Rosa "LEVEZA":
"Vi-te subir. As águas separam-se das águas. O meu alento era um puro elixir. Tu davas.me os passos com que caminhava para ti. Ligeiro, tão ligeiro entre os trepidantes cascos" | |
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medida precisa
suaviza o peso da alma:
sela o momento que suspira
e sopra fronteiras.
na memória voa o olhar
e chama o sal da terra
sobre o corpo da escrita
que inaugura sementes,
viva.
sonia regina
rio, 15.7.06
na antiguidade os sábios discutiam sobre o peso da alma e em cabo verde existe uma medida precisa: la sodade (saudade). |
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| Sobre o Poema
Herberto Helder
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Um poema cresce inseguramente na confusão da carne, sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto, talvez como sangue ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência ou os bagos de uva de onde nascem as raízes minúsculas do sol. Fora, os corpos genuínos e inalteráveis do nosso amor, os rios, a grande paz exterior das coisas, as folhas dormindo o silêncio, as sementes à beira do vento, — a hora teatral da posse. E o poema cresce tomando tudo em seu regaço. |
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E já nenhum poder destrói o poema. Insustentável, único, invade as órbitas, a face amorfa das paredes, a miséria dos minutos, a força sustida das coisas, a redonda e livre harmonia do mundo. |
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— Embaixo o instrumento perplexo ignora a espinha do mistério. |
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| — E o poema faz-se contra o tempo e a carne. | |
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poemas daqui e de acolá - edição 10.7.06
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imagem: peter h. markus
som fundo: medley
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