no fluir da metonímia: poemas e imagens

  

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no fluir da metonímia

poemas e imagens

além da linha d'água

 

 

 

 

 

                                                                  

        

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O pássaro é denso mas crispado e tem angústias, medos. Aprendeu a sabedoria de pôr-se a jusante das alamedas e do turvo chão, testemunha das planuras, pouquidões humanas.

Há pássaros óbvios. Outros habitam o peito dos mares e aí parecem-se a peixes e a algas que erram. Os pássaros não deixam tocar-se porque são nus e anunciadores. Raro desfazerem-se das sedas de que são articulados: ponto a ponto. Os pássaros são orgíacos, substantivos, a despeito de seu desarvoramento.

Pássaros são feitos de gritos monossilábicos e pulsam pautados: cascos partindo-se no ar. São o silêncio das claras de ovo, o modo de ser da marcha resolvida dos alados.

Os pássaros expõem-se denodados mas de perfil. Irrompem nas desferidas asas ou as colam ao corpo - depositário das deliberações que exacerbam os arcos, que se dão sempre e quebram-se.

 

Texto de Haroldo Maranhão, especial para Maria Elisa (Meg) Guimaraes, em 1993

 

extraído do SubRosa - post de 15.7.06, homenagem no segundo aniversário de sua morte - com autorização da Meg - Maria Elisa Guimarães, a quem agradeço comovida e dediquei a edição do laboratório da palavra deste 31.7.06, com som fundo de Fernando Sor: Poemas Daqui e de Acolá.

 

sonia regina  [soreg]

 


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Porto Santo, Madeira  

 

" A ilha de Porto Santo fica situada em pleno Oceano Atlântico, fazendo parte do arquipélago da Madeira, a fronteira meridional de Portugal." http://www.grafix.net/portosanto

Na capital da Madeira morava José Antonio Gonçalves (JAG), amigo muito querido falecido em 29.3.05, poeta e companheiro do Grupo Escritas.

Homenagem feita pelo LABORATÓRIO DA PALAVRA http://br.groups.yahoo.com/group/laboratoriodapalavra/message/507

 

 



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Na Lapa, tristeza sem fado

Para Regina Koeller e minha mãe, que me instigam a prosa

 

 

Disseram que está em paz e o dia vai bem. A tarde segue a reboque da manhã. A angústia à frente do esquecimento, destronando a atenção do que sabe de cor. Os desenhos que omite, não volta para cortá-los.

Segue num tempo dado de graça; não há pedágio nesse trecho da estrada em que caminham de mãos dadas o criador e a criatura, o algoz e a vítima, a vida que se candidata e a morte que pericia. Não sabe do veto ou da concessão no instante em que se esquece de todo o conhecimento para testar a habilidade específica. Médio é resultado incompatível com o exercício e não diferencia a ansiedade depressiva da hipomania. Papéis, carimbos e assinaturas nada dizem da lembrança que expulsa o sono e explode a dor no travesseiro.

"Talvez devessem cercar os leitos com almofadas que fossem barricadas eficazes contra o frio de inverno", pensa. "No meu país não há à venda alfinetes de segurança para prender as cobertas nem internet nos  computadores da biblioteca municipal, não há comboios às sete que levem o amor em campanha pelos trilhos." 

Nem fiambre há, no seu país. Carrega outro nome, em letras esparsas. Carrega Portugal que, para além do oceano de palavras, avança pelo Atlântico: ilha, foto e voto do amigo morto.

A escritura pára e bloqueia o anonimato. Citações sem aspas perdem-se. Arrefece a força do texto que não se presta a enxugamentos e cresce, na proporção direta de um dia que se completa como um reservatório que enche sem válvula de escape. Escreveu sobre o esquecimento e escapuliu, o seu poema. Talvez uma distração o tenha soltado da página, embora nenhuma a faça esquecer aniversários que se comemoram nos últimos dias de cada mês.

Na Lapa, dança triste a história do Portugal vindo e ido, que ainda brilha amarela nos sobrados coloniais restaurados. Mas neles não há fado: é o samba que invade a rua, passarela de pessoas sem rumo certo.

 

sonia regina -  rio, 30.7.06

 


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Para Newton Campos; Ramos Rosa (cujos versos* iniciam cada uma das partes); Nuno Branco; Roberto Oliveira; José Gil e José Felix.

 

 

Entre a pena e o papiro

 

 I

 

“Vi-te subir” * à fonte.

 

Brotava ela do sopé da colina

[imóvel na perplexidade, líquida

inexperiência frente ao abismo];

 

exaltava o poder que lhe conferia

o vento que sopra em todas as direções,

por distração e deleite.

 

* "vi-te subir".

as águas separam-se das águas.

o meu alento era um puro elixir.

tu davas-me os passos com que caminhava para ti.

ligeiro, tão ligeiro entre os trepidantes cascos" 

                                                     Leveza, Ramos Rosa



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II

 

“As águas separam-se das águas.”

O poema sedento de sentido queimou como o capim

no alto da colina - claridade intensa e breve,

sem o vento que revirava as páginas. Seguiu, fogo

à procura de combustível nas letras que escrevessem

a madeira que o alimenta e torna chama expandida

além de si: à qual enfim aderisse, leve e suave.

 

 

III

 

“O meu alento era um puro elixir.” *

à espera da chuva que purifica o ar,

sem mais silencio via o poema brotar

como o trovão que agita as águas

que o seguem, em ondas que brilham.

 

* Ramos Rosa



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IV

 

“Tu davas-me os passos com que caminhava para ti” *

o poema que procuravas por sobre a nascente

tornada poço, água estagnada que, por não fluir

contínua e gradualmente, deixou de preencher

os espaços vazios e o silêncio ligeiro,

tão ligeiro entre os trepidantes cascos”. *

 

* Ramos Rosa

 

 

 

 

foto copiada do site http://poetrycafe.weblog.com.pt/arquivo/235967.html

 

 

V

 

Guardo-o hoje comigo, entre a “pena e o papiro” [1],

“fresco como um pé marcado na areia molhada.

 

Em cada pedaço que escreve são mil histórias que conta” [2].

 

 

sonia regina

rio, 25.7.06

 

[ 1] Roberto Oliveira, editor atual de O Dono da Loja (criado por Fernando Oliveira) e O Mundo Poeta

[2] Nuno Branco, editor do Poetry Café, na publicação e comentários do meu poema Nem poeta nem sujeito



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pela leveza e empatia *

(um poema sobre a paz no líbano)

 

 

é, não se sabe por onde andará o amor

se o relâmpago nestes dias não cavalga

só trovões, avança pelo céu em comoção

extrema e escreve com lágrimas o mistério

do repouso do sol.

 

o escrito não é mais aquilo que ilumina

e alegra a escuridão, não mais atravessa

o silêncio cúmplice do horror que estende

a noite sobre o diálogo.

 

emudece a ternura do olhar - encerrada

nos muros da mente e do coração -,

a intolerância é a cegueira que guia.

 

e eu, que viajo nas asas do falcão

sem rédeas além de um fio de palavras,

teço com elas versos que - se poema -

não provocam nem incitam a poeisis

 

para que se desenhe mais

que a morte nas sílabas

 

para que se refaça a escritura

e o amor  sobreviva

 

para que não morra a leveza e a empatia

no fazer das grandes coisas da vida.

 

sonia regina

rio, 23.7.06

 

* incluído no poema coletivo ENTRECAMPOS de 29.7.06 - ENCONTROS DE ESCRITAS, grupo de discussão e criação literária.

Tema: LEVEZA , a partir do fragmento do poema de António Ramos Rosa "LEVEZA"



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leveza*

 

II

 

E o obscuro é dissolvido pelo luminoso,

embora tenha-se cavalgado com excesso

de energia ao abrir o livro, numa ação

corretiva da escrita passada.

O falcão voa das páginas, sem nomear

o que se deteriorou.  Atravessa a grande água,

num novo caminho avança sem retrocessos,

com decisão e energia corrige a indiferença

e a inércia das palavras que negligenciaram

e fizeram uso abusivo da liberdade do verbo.

Trabalha no tempo da delicadeza;

no vento que, com suavidade penetrante

como a madeira em suas raízes,

invade a alma de leveza.

Não mais sopra na base da colina

de onde retornava violento, rechaçado,

danificando a vegetação.

Na possibilidade da fratura da paisagem

a implícita reunião das águas, da luz e da sombra;

na retomada do nome da mãe a areia exubera

- também Gaia - leve serenidade de ser

no trabalho que tranquiliza e nutre.

 

sonia regina

rio, 22.7.06

 

 

* incluído no poema coletivo ENTRECAMPOS de 29.7.06 - ENCONTROS DE ESCRITAS, grupo de discussão e criação literária.

Tema: LEVEZA , a partir do fragmento do poema de António Ramos Rosa "LEVEZA"



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20 DE JULHO - DIA MUNDIAL DO AMIGO

 

" Os amigos são os anjos que nos levantam os pés quando nossas asas têm dificuldades para se lembrar como voar"  - autor desconhecido

 

 

Canção da América

 

Fernando Brant e Milton Nascimento

 

 

Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves,
Dentro do coração,
assim falava a canção que na América ouvi,
mas quem cantava chorou ao ver o seu amigo partir,
mas quem ficou, no pensamento voou,
o seu canto que o outro lembrou
E quem voou no pensamento ficou,
uma lembrança que o outro cantou.
Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito,
mesmo que o tempo e a distância digam não,
mesmo esquecendo a canção.
O que importa é ouvir a voz que vem do coração.
Seja o que vier,
venha o que vier
Qualquer dia amigo eu volto pra te encontrar
Qualquer dia amigo, a gente vai se encontrar

 

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edição especial dia do amigo: sonia regina

imagem: Allan Richarrd Maxwell

som: Canção da América



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poemas daqui e de acolá - edição 17.7.06    

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formatação em html, seleção do poema, imagem e som: sonia regina   



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leveza *

 

I

 

cavalgo o dorso do mundo no tempo

que passa, deito no sussurro da relva

e lhe percebo os sentidos que correm

em cada fruto.

dos lábios a arte penetra a manhã

e dela se apoderam as mãos, levemente.

num movimento fabuloso a palavra pousa

e é poesia, magia que dá vida à pedra,

sonho das águas que não dormem.

basta um toque que as instigue

ao ponto de vôo e lá se vão elas,

desenhando os passos do caminho

nas ondas que tremulam, entregues

ao espanto da língua, ao arrepio do beijo,

candeias de uma escuridão tornada sol.

 

sonia regina

rio, 16.7.06

 

* incluído no poema coletivo ENTRECAMPOS-LEVEZA de 29.7.06 - ENCONTROS DE ESCRITAS, grupo de discussão e criação literária, a partir do fragmento do poema de António Ramos Rosa "LEVEZA":

 

"Vi-te subir.
As águas separam-se das águas.
O meu alento era um puro elixir.
Tu davas.me os passos com que caminhava para ti.
Ligeiro, tão ligeiro entre os trepidantes cascos"


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medida precisa

 

 

 

suaviza o peso da alma:

sela o momento que suspira

e sopra fronteiras. 

na memória voa o olhar

e chama o sal da terra

sobre o corpo da escrita

 

que inaugura sementes,

viva.

 

 

sonia regina

rio, 15.7.06

 

 

na antiguidade os sábios discutiam sobre o peso da alma e em cabo verde existe uma medida precisa: la sodade (saudade).



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Sobre o Poema

Herberto Helder

 

 
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

 

Fora existe o mundo.
Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

 
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

 

 
— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

 

 
— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

 


poemas daqui e de acolá - edição 06.03.06 

formatação em html e seleção  da imagem (Demarquet, Geoffroy): sonia regina

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poemas daqui e de acolá - edição 10.7.06 

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imagem: peter h. markus

som fundo: medley

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