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| canoeiro

leva-me, canoeiro, para além da curva do rio, que seja a tua canoa um quadro sem mar. desenha-me nas sombras e nos mistérios da sofreguidão das ondas, do acender das sílabas, da sede que busca as vinhas, do ardor que chega à praia e funda instantes densos, na preamar. cuida da minha alma, pega-a no colo, toca meu corpo sem palavras, faz-me feliz com lágrimas, para que eu não esqueça do gosto da água temperada com sal. lava-me de todo o simbólico e do imaginário que marca o real, mostra-me o ultra-secreto desse lugar. que seja uma carícia quente na água da vida, o teu remar; que seja leve o balanço e que, numa dádiva silenciosa - em reverência - o estado da arte sorva a saudade e sugue de nossos lábios o poema.
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como um relato do tato

não há técnicas localizáveis no verbo.
a arte está no discurso e no ato,
na prática e na memória
como um relato do tato.
sonia regina
rio, 15.4.06 |
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cogito 2
expressão de atos de uma teoria pouco desenvolvida,
a prática afetiva é insuficiente para solucionar fricções.
sonia regina
rio , 15.4.06
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cogito 1
a sentença não afirma um princípio
quando muito, constata um fato
interpreta sinais comuns
sonia regina
rio , 15.4.06 |
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caminheira
piso o solo, caminheira das histórias que empilhei
conservo o hábito de arrancar o contentamento
bem do fundo das ausências
pratico o espaço, no balanço me desloco do eu pro mim
desfaço o legível e construo o júbilo, ‘sacudida
por uma força que desafia os cálculos’ *
* kandinsky
sonia regina
rio, 14.4.06 |
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véspera
não sendo, aprendo a estar
entre, diante, como uma habitação
sem residência fixa ou pouso,
relato possível ou memória
um mergulho em si, a solenidade da posse,
na morada que edifica prodígios
e usufrui a véspera
sonia regina
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averbação
tão íntima do vão da janela, essa árvore,
recorta o céu de outono
na colina, pontos de luz não são escritura;
decoram a noite, como iluminuras medievais.
luzes no monte, daquela janela, quantas vezes mais?
sonia regina
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ao sabor do vento VI
há um atrás das portas da tua cidade,
um acolá pleno de pastagens poéticas.
à noite escuto, no teu sussurro circular,
um convite que me chega em ondas
e, imensas vagas, bailamos
[pagãos]
pelos campos.
sonia regina |
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sotaque
tua voz, como uma fala mítica,
invade minha rua, atravessa
minha janela e comigo se deita.
sotaque que percorre meu corpo,
num traçado de língua que acaricia.
sonia regina |
sobretudo
como mãos invisíveis
que saboreiam o tato
e fecundam o solo de ais
somos os dois
[sobretudo]
uma paisagem sonora.
sonia regina
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suspiro
concentra o sol na ponta dos teus dedos;
oferece-o, a cada nervura do meu corpo
inquieta-as
até que se apague a saudade
do meu sorriso
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galope
não é um simples cromo [ou retrato].
é vivo o espetáculo, espelho refletor
desse cinza que ondula
: um mar dos sentidos, a água.
inesperado eco do meu galope
nos debruns da tua alma que,
de madrugada, trota com a minha.
sonia regina
Itaipuaçu - 29.9.05
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suspiro de ébano
a lua ilumina minha carne selvagem
que uiva de dor e, tu, me alivias.
és minha gota de chuva e me inundas
[água sobre lágrimas]
me lavas mais que um milagre,
e eu te amo
: afoga-me de ti
a própria razão pode levar a um impasse
e, perdoa, se me demoro: anda tapado
de pensares, o meu açude.
ponto negro na encruzilhada, sou suspiro
de ébano a dizer pedaços do teu nome,
pela madrugada
mas não saber o que fazer é prosseguir
e eu quero sair da beira da brancura,
ser onda de fogo a sobrevoar o lodo,
jogar capoeira e ficar de pé.
sim, sou guerreira - ar, terra, pedra -,
mas sou mulher
junto destroços de palavras, arranho
meu ser estático e impactado
[com os cacos]
até abri-lo e deixar-me entornar
inteira
escrita de mar.
sonia regina
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| despertas

uma mansão de cenário, uma poesia deserta. despertas. silenciosas, mantêm-se acesas no movimento as letras que provocam, contraem, se abandonam. Vês com estão entregues às sílabas? pretendem se realizar no segredo de novos idiomas. sonia regina |
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61 segundos
a terra rodou sete elipses
sete translações dançaram os céus, no tempo que esticou o ponteiro das horas
as ondas dos átomos de césio não são marés de ressaca, espumam mágoas ou hesitam: nelas a vida se apresenta cadente e precisa constante e certa
o último minuto de 2005 teve 61 segundos [e chuva] para acertarmos os relógios nas moléculas d'água pro sol desenhar o calor do beijo pra pulsar o azul que abraça
na paisagem bordada abre-se o horizonte à ternura da alga
ao sabor do vento cresce o mundo
o prazer explode e avermelha a alborada.
sonia regina
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“como um relâmpago intacto no sangue”*
relampeja alef nos espaços abertos [sem bordas de versos inspirados]
branqueia as nervuras da nova geometria
um último alento suspira a morte, exangue, nas molhadas mãos de escritura indecifrável
numa respiração lida sem ambivalência “como um relâmpago intacto no sangue”*
sonia regina
* " Aí onde começa a respiração, onde o alef penetra oblíquo como um relâmpago intacto no sangue: Adão, Adão: Oh Jerusalém." - Valente, José Ángel . fragmento de Primeira Lição . tradução de Jorge Henrique Bastos.
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deus e o diabo na terra do sol *
o verso delira no corpo, viaja nos cabelos,
sobe e desce nas letras, escapole das aves
que rapinam o verbo,oferece o baço ao fel.
brota na página, pula carniça nas garatujas,
mágico mistério do que não há
é e está, o verso
aqui, aí, lá
acolá...na cola do poema, entre isto e aquilo
o lusco e o fusco,o eu e o mim, o não e o sim.
vai e volta quando morde a sílaba, engata,
deita na palavra, balança,chama a chama
do deus e o diabo na terra do sol.
a artimanha macia da ventania? ele traça.
tem raça, caminha na praia atrás do dia
do milagre do ouro que o sol choverá.
espairece a falta e não pensa
se vale ou não vale tentar.
joga água fria na fervura da alma e fala
da imaginação, pele fresca do texto poético,
da alucinação, da visão, das práticas aliadas da inspiração.
aguarda
a fagulha que o incendeie
e num clima de labareda por fim vibre
a poesia, desvire
a metáfora em ação.
sonia regina
* Filme de Glauber Rocha |
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Nadador |
| Cecília Meireles |
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O que me encanta é a linha alada das tuas espáduas, e a curva que descreves, pássaro da água!
É a tua fina, ágil cintura, e esse adeus da tua garganta para cemitérios de espuma!
É a despedida, que me encanta, quando te desprendes ao vento, fiel à queda, rápida e branda
E apenas por estar prevendo, longe, na eternidade da água, sobreviver teu movimento... |
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leminski |
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um bom poema leva anos cinco jogando bola, mais cinco estudando sânscrito, seis carregando pedra, nove namorando a vizinha, sete levando porrada, quatro andando sozinho, três mudando de cidade, dez trocando de assunto, uma eternidade, eu e você, caminhando junto |
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abraço
crio veludos em um canto,
bem no ventre da minha pedra
favorita e cortesã.
trago-a quieta e atenta
[sempre acesa,
ainda que de leve]
como que à espera
de um momento
[cremoso]
no qual se deite, me enrole
e me embole contigo.
até que me traduzas em ti
e me leias, inteiramente,
na minha nudez em tuas veias
como ninguém o fez
ou fará.
sonia regina
(29.5.04) revisto em 04.4.06
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