no fluir da metonímia: poemas e imagens

  

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 Robert Creeley

 



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eu te amo como um colibri resistente
incansável beija-flor que sou
batedora renitente de asas
viciada no mel que me dás depois que atravesso o deserto.
pingas na minha boca umas gotas poucas
do que nem é uma vacina.
eu uma mulher, uma ave, uma menina...
assim chacinas o meu tempo de eremita:
quebras a bengala onde me apoiei, rasgas minhas meias
as que vestiram meus pés
quando caminhei as areias.
eu te amo como quem esquece tudo
diante de um beijo:
as inúmeras horas desbeijadas
os terríveis desabraços
os dolorosos desencaixes
que meu corpo sofreu longe do seu.

Escolha   -  Elisa Lucinda

 

elejo sempre o encontro
ele é o ponto de crochê.
penélope invertida
nada começo de novo
nada desmancho
nada volto.
teço um novo tecido de amor eterno
a cada olhar seu de afeto
não ligo para nada que doeu.
só para o que deixou de doer tenho olhos.
cega do infortúnio
pesco os peixes dos nossos encaixes
as confissões de amor
as palavras fundas de prazer
as esculturas astecas que nos fixam
na história dos dias.



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Sobre o Poema

Herberto Helder

 

 
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

 

Fora existe o mundo.
Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

 
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

 

 
— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

 

 
— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


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