<

  

 

 

no fluir da metonímia

o poema

 

além da linha d'água

 

 

 

 

                                                                   sonia regina [soreg]

 

 

         
 

 

 

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Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 



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Ilia Shalamaev

 



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LLansol

              

 

    

 

 

 

 

"Liga-nos a aquiescência de que almejar com a escrita não é o mesmo que esbanjar no vazio a palavra."

 

Maria Gabriela Llansol

 

 

 

 

In: Um falcão no punho, Lisboa, Rolim, 1985, p. 60.

imagem:  John  Hill



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Homenagem Póstuma a Antonio Domingos Aldrighi

 

 



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Publicado na Edição Poemas Daqui e de Acolá - Revista Digital Laboratório da Palavra

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Soreg - Jornada Profunda I

 

 

Jornada Profunda

 

I

 

 

Os males não se penduram intactos nos quadros. A tela, como a pele, cerra os poros e ao ar livre recompõe-se. O lastro é de uma passagem, um rasto, como sorrisos nos retratos, luares em que não se banha duas vezes.

 

Não se resumiram num parágrafo final as eras que suportavam o conhecimento e a felicidade do sublime experimentado na carne, o transcendente fogo dos deuses - escrito em versos - não morre na poesia.

 

Mas todo o bem não regressou ao Olimpo e à porta entreaberta pressente-se a transmutação, em flores, do gelo e da neve.

 

O passado, ao repetir-se diferente, revela.

 

 

Sonia Regina

In: Midas

 

 



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Daniel Faria

 

 

       

 

 

 

 

Depois das queimadas as chuvas
Fazem as plantas vir à tona
Labaredas vegetais e vulcânicas
Verdes como o fogo
Rapidamente descem em crateras concisas
E seiva
E derramam o perfume como lava

E se quiséssemos queimar animais de grande porte
Eles não regressariam. Mas a morte
Das plantas é sua infância
Nova. Os caules levantam-se
Cheios de crias recentes

Também os corações dos homens ardem
Bebem vinho, leite e água e não apagam
O amor

 

 

 

                                                            Daniel Faria

 



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soreg - silêncio

 

 
 

 

 

silêncio

 

 

fala por ti o ar com cheiro de maresia

desta praia em que não estás,

este aroma  de vácuo sem pormenores

das estrelas.

 

tenho-as nas pontas dos dedos

 

e não sei o que fazer com essa luz

que aqui não existe senão na impressão

de um tédio que também não é real.

 

 

 

sonia regina
2.6.08

 



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Daniel Faria - Sobre este dia precipitem as manhãs

 

 



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soreg - estrondos

 

 



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soreg - sulco para a palavra

 

       

 

 

 

sulco para a palavra

 

 

 

não mais se emprestam aos versos,

as palmeiras, ou neles assina, o mar

 

e o poema tarda

 

perdido num oceano bravio

ergue-se áspero, impiedoso

desgasta pedras e ilhas

 

revira num pesadelo cruel

a vontade de ser nervos,

veias, ossos sem fraturas,

 

sulco fecundado pela palavra.

 

 

 

sonia regina

31.5.08

 

 



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soreg - um sol em cada letra

 

       

 

 

um sol em cada letra

 

 

temos os braços bronzeados de sonhos

(o que nos aproxima da estrela amarela

por outro viés).

 

sem presenças inúteis ao estado da arte,

abraçamos pensamentos que minguam

 

e atos que se tornam fatos;

 

ditos enfraquecem num idioma sem espírito 

e as novas palavras brilham.

 

dos dedos cai no papel um sol em cada letra

e os reflexos vão retornando ao espelho...

 

 

sonia regina

31.5.08

 



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O Raio da Bomba - Yehuda Amicai

 

 



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Rober Frost

 

 



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soreg - bola de ar que estoura vira fada

 

 

 

 

 

 

bola de ar que estoura vira fada

 

 

 

parou de chorar. sorriu...

e imaginando, talvez,

poder ver a fada amarela

 

olhava os pedaços de borracha

já sem tristeza.

 

 

 

sonia regina [ soreg ]
28 de maio de 2008

 



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soreg - astericos .1

 

 



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soreg - cogito 9

 

 



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Sensorial - Adélia Prado

   

 

 

 

 

Sensorial

Adélia Prado

 

 

 

Obturação, é da amarela que eu ponho.

Pimenta e cravo,

mastigo à boca nua e me regalo.

Amor, tem que falar meu bem,

me dar caixa de música de presente,

conhecer vários tons pra uma palavra só.

Espírito, se for de Deus, eu adoro,

se for de homem, eu testo

com meus seis instrumentos.

Fico gostando ou perdôo.

Procuro sol, porque sou bicho de corpo.

Sombra terei depois, a mais fria.

 

 

Imagem: Eric Brown

Arte digital:   soreg

 



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Fiama H.P.Brandão - História Literária

 

 

 

 

 

 

História literária

 

Fiama Hasse Pais Brandao

 

 

 

Dou graças a meus olhos

que apaziguaram o meu cérebro

estarrecido pela literatura.

Outrora era o poder das letras,

a beberagem, o filtro das sílabas

que brotavam em espiral

das páginas dos mestres insanos.

Era eu num alto poço, com o fundo

no topo inverso da minha cabeça,

a sorver o crânio dos antepassados.

Era eu, no mais dentro de uma britadeira

mental, a reunir a fragmentada

palavra una, ventre de todas as palavras.

Hoje ou agora, os meus olhos

são somente como o tacto: apalpam,

marcam, com a sua secreção,

o rebordo de cada objecto, dos seres,

o limite de uma crónica dos dias.

 

 



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soreg - a hora do vôo

 

 

 

 

 

A hora do vôo

 

Abrira o correio: nada de novo. “Devia viver sem esperar. Esperar gera expectativa, o que é ruim”, pensou.

Saiu. Levou Boris e foi perambulando até a Praia da Ponta da Areia. Sentou-se num banco, quando viu as garças. Deitado a seus pés, o cãozinho realizava o que havia de lealdade.

Tentava pôr ordem nos sentidos, embaralhados com pensamentos avulsos que a povoavam desde a véspera, em sonhos e devaneios. Freud dizia que as imagens dos sonhos são, na verdade, estanques. São cenas separadas como as que são vistas da janela de um trem em movimento, sendo o enredo construído por nós.

Há muito não sonhava acordada. Recolhia cada uma das imagens que a inundavam, tentando deixá-las fluir. Capturadas e costuradas na mente, retalhos numa escrita de parágrafos disjuntos, sem enredo possível, aprisionavam.

Lembranças emudecidas e sonhos decepados paralisam ações na ausência da cor. E o tempo estivera parado, naquela tarde cinzenta: os pássaros não cantaram, nenhum barulho veio dos vizinhos, o cigarro esperou o café que não se fez. Sem hostilidades, o mundo se mostrava incerto. Tudo parecia estar de sobreaviso.

O vôo repentino de uma garça sacudiu-a, assinalando ter chegado o momento. Era imperioso voar.  

 

   

Sonia Regina. In: Midas

14.5.08

   

 

 

  Imagem: Soreg -  Jardim Botânico, Rio
 


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Maria Gabriela Llansol

 

 



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Paul Eluard

 

 

 



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Emily Dickinson - Algo existe

 

 

Poemas Daqui e de Acolá - seleção da imagem e formatação: sonia regina [soreg]
 
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DIA DAS MÃES: PARABÉNS A TODAS!

 

 

ÀS MÃES, UMA HOMENAGEM

 

 

 

FONTE

II

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas senta-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
a através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
 

HERBERTO HELDER.   In: A Colher na Boca. 1930



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Cecília Meireles

 

 



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Em memória de Artur da Távola - Tudo ruim, mas tudo bem

 

 

 

 

Tudo ruim, mas tudo bem

Artur da Távola

 

 

O “tudo bem” é uma expressão profundamente brasileira. Somos um povo pacífico e acomodado. Término do romance, sem dinheiro, brigou com a família e, após contar a desgraça inteira, diz: “Mas tudo bem”.

 

Na verdade, preferimos fingir que não ligamos e secretamente diluir o que nos chateia ou oprime, a remover o mal sob forma cirúrgica. Para tal, o “tudo bem” cai como luva. Revela uma espécie de certeza de que nada é duradouro, tudo acabará modificado, por mais que a rigidez pareça dominar O “tudo bem” possui duas outras leituras que latejam por dentro de sua significação aparente. São elas: “Não faz mal” e “deixa comigo que adiante eu dou um jeito. “Não faz mal” quer dizer “não importa”, “não há de ser nada”, “tentaram me atingir mas não conseguiram”. Quer, portanto, dizer:“Olha, eu não desistirei; estou apenas fingindo que não ligo”.

 

O “deixa comigo que adiante eu dou um jeito” revela outra atitude sábia do chamado caráter nacional. Eis sua tradução detalhada palavra por palavra: “Eu sei que as coisas não duram. Sei, também, que, enquanto estão quentes, as pessoas se aferram. Não adianta forçar nessas horas. É esperar a emoção, o impulso, a vontade e a teimosia passarem e, na medida em que a realidade tiver atuado sobre elas, diluindo o rigor anterior, então a  gente entra na brecha e vai fazendo do jeito que quiser”. Na medida, portanto, em que a expressão “tudo bem”, como espelho da maneira de ser, da psicologia, do caráter e do comportamento brasileiros, possui essas duas conotações revela algumas características (e até virtudes) da maneira de ser brasileira; paciência; teimosia; capacidade de esperar; certeza de que não fará o que não quer fazer; confiança nos seus próprios métodos; certeza de que a realidade é sempre complexa e acaba se impondo com a variedade de seus resultados; convicção de que mexer demais nas coisas acaba atrapalhando; percepção de que nada é duradouro; de que é necessário criatividade para impedir as deformações da imposição de qualquer certeza exagerada; fé no tempo como o grande e lúcido mediador das coisas; falta de pressa; e certeza na própria decisão. E, também, uma certa capacidade de perdoar e encontrar desculpas para as coisas e prosseguir. O lado sábio do brasileiro é enrustido. Por malandragem ele finge não existir.

 

Que é tudo isso? Uma teoria de acomodação? Do deixa pra depois? Da alienação? Estarei teorizando sobre o conformismo, uma característica negativa da nossa maneira de ser?

Se é o que você acha, leitor, então tudo bem, tudo bem: mais adiante a gente se entende, ou você me entende, ou eu o entendo, tudo bem, não esquente a cabeça e vá em frente que no fim acaba dando tudo certo. Brasileiramente. Ainda bem; isto é, tudo bem. Tudo bem?

 

(Gentilmente cedida por Artur da Távola para o Armazem de Sonhos e o Sonho Digital )



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Clarice Lispector

 



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Paulo Leminski



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soreg - Na platéia, a nova cena

 

 

Na platéia, a nova cena

 

Ondas fecham-se na boca de um deus perdido na luz que ruma para o horizonte entre os sobressaltos do sono. Na visão da costa, somente a voz da cidade clara. Já ecoa no cenário o chamado para o sol.

Nas faces a transfiguração, num sorriso vindo do esgar esverdeado do nascituro. Tudo está neles porque nasceram do amor e a natureza estética acende o riso no apagar das estrelas.

Floresce na espuma o rumor que ensina como regressar do exílio sem voltar e, ainda que não possam navegar, a voz cada vez mais desvela nas vagas a idéia abstrata.

 

Sonia Regina.  In: Midas


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